Estamos todos, respeitáveis leitores, saídos agorinha mesmo de mais um Carnaval de Vitória. Toda canção brasileira é triste, com temas repletos de lamentos e culpas. Caetano Veloso, Chico Buarque, Ary Barroso, Noel Rosa, Jorge Ben, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Roberto Carlos, Elis Regina, Belchior, Luiz Gonzaga, Nara Leão, Pixinguinha, Cartola, Paulinho da Viola e grande elenco são ilustrativos exemplos.
No Carnaval não.
Toda euforia reprimida pela realidade explode em uma onda de alegria verdadeira e única. Sábado, assisti de casa – que não sou de chuva – o desfile das entidades do carnaval capixaba: um primor.
Eu tenho uma tese científica sobre as mulheres capixabas: aonde o pesquisador for – loja, avenidas, ruas academias, praias – avistará pelo menos duas repletas de beleza. O Rio perde para o nosso cor-de-rosa e azul. As cariocas são mais assanhadas, o que não é defeito, graças a Deus.
Os homens deste Estado, localizado bem no meio do país, terra e mar, são sedutores e belos, em sua maioria, mas fingem timidez. Um capixaba legítimo jamais ataca uma dama, no bom sentido. Espera quieto pelo olhar velado e o sorriso sedutor, fingindo indiferença.
As músicas dos sambas de enredo do desfile deste ano, como as anteriores, são autênticas pérolas populares para se cantar e dançar.
Que povo criativo o que defende a Unidos da Piedade, Novo Império, Jucutuquara, Boa Vista, MUG, Chegou O Que faltava e Pega no Samba. Isso só no grupo especial.
Até o brilhante Edson Papo Furado, fundador em grande estilo da Piedade, compareceu com seu pensamento musical que não para. No momento recupera sua saúde e participou de casa.
As torcidas contracenavam com o canto e até fantasias. Ficaram com chuvisco e tudo até o bater do derradeiro tamborim.
Resolvo dar uma volta no domingo de manhãzinha pelo meu bairro e vejam o que me aparece: um figurante fantasiado cantando e dançando a letra de um dos enredos.
Lembro de Papo Furado dentro de um quiosque da Rua Sete, solando em sua caixa de fósforo um samba dobrado e improvisando letras para a torcida cativa ao redor.
Na manhã de domingo, os atores voltaram para suas tristezas e lágrimas.
Como se não fosse o bastante, um grupo de filhos de Deus, o Bloco Que Loucura, formado por militantes profissionais ligados à Saúde Mental, estrearam na passarela suas cores.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, entrou em casa cantando “Hoje eu vou tomar um porre, não me socorre que estou feliz”.