Fevereiro trouxe desde sempre um gostinho especial: o espírito livre de Aquário, o samba que embala a alegria coletiva da temporada, certas histórias de carnaval, aniversários de muita gente querida, o dia em que eu mesma celebro uma nova volta em torno do Sol.
Aos poucos, fevereiro vai também se ocupando de ausências e saudades.
As saudades de fevereiro têm o cheiro do feijão que a avó preparava para quando chegássemos da escola. Do panetone que aprendi a gostar porque ela gostava. De seus conselhos sábios, mãos firmes, braço seguro. Do tradicional sabonete de glicerina com fragrância de rosas que mantive como hábito em sua homenagem - Phebo, deus do Sol, da música, das artes e da profecia, a propósito.
As ausências de fevereiro têm um toque do irmão que peguei emprestado, mas se foi cedo demais. Das nossas aventuras sócio-jornalísticas em lugares pouco ortodoxos. Da forma afetuosa como nossas famílias se tornaram uma só. Da marra que era só aparente. Do bilhete que ele deixou dias antes de partir, e guardamos na caixinha de guardar coisas que realmente importam.
As saudades de fevereiro têm a força da personalidade da tia que se orgulhava das nossas semelhanças. Do cabelo cacheado e do jeitão aquariano de ser, olhos à frente, independência, modos um pouco excêntricos. Da sua filosofia de vida, que pode ser resumida pela máxima, também de sua autoria, chiquíssima:
- Melhor chorar em Paris do que sorrir embaixo da Ponte do Limão.
Por sorte, acaso, destino ou a poesia da vida, as ausências e saudades das quais aos poucos fevereiro vai se ocupando também são feitas de afetos, de lembranças que aquecem o coração, do espírito dos recomeços e da mania de reconstruções.
Afinal, este fevereiro do espírito livre de Aquário, do samba, da alegria coletiva, dos aniversários de gente querida e do dia em que eu mesma celebro uma nova volta em torno do Sol é também o mês em que, pelos últimos 100 anos, nos rendemos ao modernismo.
O modernismo - talvez você se lembre - nos ensina a ter raízes no lugar de âncoras e a resistir à falta de sensibilidade que anestesia, à política que estimula o extermínio, ao descaso no lugar do cuidado.
O modernismo nos move a sair da bolha, celebrar a diversidade, abrir espaço para assimetrias, combinar discordâncias, incluir opostos. Por sua própria natureza, ele nos inspira a recriar, renovar e revigorar as coisas. O modernismo - talvez você se lembre - nos ajuda a seguir quando a alegria falta.