Prezada Carmélia,
Daqui uns dias, faz 50 anos que você partiu. Você e eu nos encontramos uma única vez, na imaginação do saudoso Milson Henriques. Estávamos as duas numa mesa do Britz Bar, no Centro de Vitória, num papo que parecia sério, apesar de às vezes darmos gargalhadas.
Eu, pequena ainda, tinha um olhar sapeca, doce e cúmplice, com uma pitada triste da lua minguante, nas palavras dele. Você parecia confortável, embora não fosse chegada a crianças.
Milson apareceu de mansinho; não queria ser visto. Eu notei, fingi que não. Ele gostou da cumplicidade e reconheceu naquela criança, sentada no bar temido e condenado pela Tradicional Família Capixaba, um olhar que conheceria no futuro, três décadas depois.
Neste futuro, seríamos amigos e falaríamos de você, da vida, das tarefas, dos afetos, dos desafetos e dos dias em que falta coragem. Falaríamos de janeiros e dos porvires feitos de esperança.
Eu faria uma carta aberta também para ele, e depois outra. Ele faria falta.
Não sei que notícias você tem, se é que tem algum tipo de notícia no lugar em que se encontra agora. Mas, se há vida depois da morte [eu acredito], a esta altura você já notou que a humanidade não melhorou muito, ao contrário do que você esperava.
Seguimos vaidosos, individualistas, afoitos e com a terrível mania de não ouvir o que os outros dizem.
Choveu bastante nos últimos dias, e Franz Kafka foi cancelado pelo tribunal das redes sociais, um júri que você não chegou a conhecer, mas que define muito do que somos hoje.
Às vezes eu também choro. Mas, como na sua “Crônica Otimista do Instante que Passa”, Carmélia, aprendi a continuar, a plantar flores, a cumprir promessas, a manter a esperança que tempos difíceis exigem de nós.
Você tinha razão, de todo modo: as coisas da vida seguem ficando mais belas enquanto ficam mais simples.
Acho uma enorme pena que nosso encontro tenha existido apenas no sonho que Milson descreveu no prefácio do meu livro “Quase um Segundo”. Vez ou outra, sinto mesmo que nós duas fôssemos velhas conhecidas, embora você tenha morrido uns anos antes de eu nascer.
Você, a cronista do povo, com seu amor pelos bem-me-queres, seu ódio por Maysa Monjardim Matarazzo, sua opinião sobre a vida e a morte, uma bela e outra ridícula, respectivamente. Você, displicente no vestir, bruxa e irremediavelmente distraída, com seu porrilhão de defeitos e uma idade que variava de 15 a 80, dependendo do dia.
Entendo você. Também perdi simpatias, sombrinhas e oportunidades. Acho, igualmente, que o tempo tem sido curto. De repente, escrevo cartas como se não houvesse nada mais importante a fazer. E, sem tirar nem pôr, tendo a concordar com sua resposta à pergunta daquele texto, três anos antes de sua morte:
- Quando? Por quê? Como?
- Ontem, porque sim, por amor.