Oito anos se passaram desde a primeira Carta Aberta aos Amigos do Peito, e sinto dizer que, a despeito das vontades, dos planejamentos e das saudades, ainda ando profundamente em falta com vocês.
Como naquela época, eu podia depositar a culpa na raridade do tempo, na lista robusta de tarefas postas, na agenda com mais atribuições que prazeres, nas obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes.
Eu podia responsabilizar o tamanho do trabalho, o aperto dos prazos, o peso da coluna, o horror dos boletos, a perna que lateja, o trânsito que não flui, os excessos do fim do ano. Podia reafirmar os pratos que ficaram pela pia, o desânimo que superou o roteiro, o cansaço que engoliu o previsto, a vontade que sumiu do mapa.
Podia, como da outra vez, dizer que ainda torço por nós, mesmo que a distância, e para que nossa amizade tenha um pouco da beleza e da resistência das zamioculcas, tão práticas quanto generosas com descuidos ocasionais, tão suaves quanto pouco exigentes com regas e adubações.
Como antes, eu podia compartilhar minhas esperanças num período carregado de reencontros, apesar da raridade do tempo, da lista robusta de tarefas postas, das obrigações, urgências e emergências enfileiradas como credores impacientes.
Eu podia, também, trocar o lado do disco. Ao invés de responsabilizar o tamanho do trabalho, as contas a pagar, gavetas a organizar, projetos a realizar ou prazos a cumprir, eu podia falar dos caminhos, dos futuros, das perspectivas e das possibilidades.
No lugar de me apegar às mudanças que não acompanhei, às vitórias que não contei, aos dias que se passaram sem que eu soubesse onde-e-como estavam os amigos do peito, eu podia sacramentar a expectativa de que fôssemos inseparáveis.
Conversaríamos sobre recuperar laços que se partiram, sobre desatar nós entre eles, sobre como não soar clichê quando se trata de solidão, tristeza e coração partido. Conversaríamos sobre com quem falar quando não há ninguém por perto.
Desvendaríamos o engano das redes sociais, em que cada um de nós aparecia feliz, enturmado e bem-sucedido sem de fato estar. Colocaríamos as vulnerabilidades na roda, sem medo. Desabaríamos, se fosse o caso.
Do outro lado do disco, haveria outras questões, a literatura dos últimos dias, a morte em vida, as despedidas, os encontros, as decepções, as escolhas, os esquecimentos, os deslizes e os milagres operados pelas horas em movimento.
Do outro lado do disco haveria o tempo, cansativo e curativo, em toda a sua intrigante contradição.