Numa das cenas mais tocantes de “Mussum, o Filmis”, a mãe do menino que se tornaria o trapalhão e sambista Mussum diz que lutou a vida toda para que os filhos tivessem algo que ela não teve: escolhas.
Uma mãe solo, analfabeta, cria da periferia a quem a vida negou a maioria das oportunidades, mas que olhava o mundo com firmeza e sensibilidade. Uma mulher preta em toda a sua potência, que contrariou as estatísticas e, com a ajuda do talento do filho mais velho, semeou terrenos em que brotaram caminhos menos ásperos e mais prósperos.
A missão se cumpriu. Ao contrário da mãe, Antônio Carlos Bernardes Gomes teve escolhas. A certa altura do filme, ainda criança, ele aparece, literalmente, em cima do muro, dividido entre o samba e a segurança.
De um lado, o batuque que vem do quintal hipnotiza o moleque. Do outro, o chamado materno simboliza o juízo e a estabilidade de uma vida distante da farra.
A dúvida acompanha o personagem durante toda a história. Mussum integrou o grupo Originais do Samba por cerca de duas décadas, mas deixou o conjunto quando o sucesso como comediante de televisão passou a atrapalhar os compromissos que ele tinha com a música.
Na época, a TV representava um salário fixo, um contracheque generoso que empurrava o artista para longe do que ele mais gostava de fazer.
Seu trabalho nos Trapalhões reforçava estereótipos que hoje soam fora do tom, mas pagava melhor e de forma mais regular do que o samba.
Como escolher entre o bolso e o coração quando o que paga os boletos se distancia do que faz o olho brilhar?
Mussum apostou na estabilidade, mas a dúvida vez ou outra ressurgia. Teria marcado a opção certa? Ou, ao contrário, estaria mais feliz se o lado escolhido fosse o outro?
Eis uma história que se repete… Escolhas têm efeitos, consequências e correção monetária, exatamente como o Ensaio sobre a Natureza dos Juros ensinava que seria: estômago, amores, espíritos e equilíbrio sujeitos aos acréscimos monetários de quem empresta a quem paga, mais ou menos como na economia.
O que levar e o que deixar para trás quando o limite se impõe? Como saber a hora de parar e a hora de seguir? O que cai melhor, solidão ou companhia, saltar de paraquedas ou a sorte de um amor tranquilo, dinheiro no fundo de renda fixa ou, como na canção, melhor queimar tudo agora do que desaparecer aos poucos?
Escolher pode ser difícil, dona Malvina nos lembra enquanto aconselha o filho no filme. Mas pior mesmo, ela ensina, cheia de razão, é quando a gente não tem escolha.