Pode parecer que falo de forma genérica quando direciono uma carta aberta ao bonde das exaustas. Bonde, afinal, é bando, um bocado de gente com ou sem elementos comuns no qual a gente às vezes não vê nome, rosto ou aspectos individuais.
Mas bonde também pode ser um grupo, uma turma, um coletivo com quem você caminha, com o qual se identifica, com quem compartilha desejos e desafios. E a verdade é que somos muitas no bonde das exaustas.
Tem gente no bando que se conhece de outros carnavais. Tem gente que nunca se viu, mas divide sintomas parecidos de uma saga contemporânea chamada cansaço.
A cabeça pesa. O pescoço dói. A paciência encurta diante da geladeira quebrada, da pia entupida, da consulta atrasada, do relatório não entregue, do sentimento não dito.
Os joelhos fraquejam. A pálpebra treme. A esperança escapa diante da falta de foco, da comida vencida, da reunião que podia ser um e-mail, das fendas, partidas e ausências.
Você gostaria de se juntar a nós?
Os requisitos são estes: sentir que falta perna pra tanta demanda, achar que não dá conta, deixar a louça na pia torcendo pra que ela desapareça, desanimar de um programa que até outro dia parecia imperdível, ser reticente, impaciente, intransigente em situações que, pensando bem, nem precisava tanto.
Alguém disse, com toda razão, que nossos cansaços carregam mensagens. Por meio deles, o corpo se expressa, o coração aponta o que não serve mais, a mente espalha indícios de que pessoas, lugares, situações ou conteúdos já deram o que tinham que dar.
Se pararmos para ouvir, eles nos dizem se devemos insistir ou desistir, ficar ou partir, acreditar ou duvidar. Cansaços podem balizar escolhas, apontar limites, direcionar avanços ou recuos. É possível que eles até nos mostrem o caminho.
Certos cansaços são capazes de nos levar de volta a nós mesmas.