É quase final de dezembro. Vocês vão me permitir falar de uma certa melancolia. É que nesses dias me bate a saudade dos tempos em que eu era menina e saltitava pelas areias de minha Conceição da Barra. Durmo e acordo pensando em coisas diversas que ali aconteciam, justamente na mudança de ano. Entre elas, o ritual do Ticumbi.
Era minha alegria acompanhar a chegada da canoa dos congos pela ribeira do Cricaré. Na verdade, o que eu mais amava era ir pelas ruas atrás de um dos dois grupos em que o cortejo se dividia depois. Os guerreiros do Rei de Congo e do Rei de Bamba marchavam até a igreja, onde São Benedito já os esperava, tendo ao colo o Menino Jesus, de pele e olhos claros.
Enquanto isso, uma devota ia de porta em porta, esperando as esmolas da festa, levando nos braços uma pequenina escultura talhada em madeira escura, que os barrenses (pelo menos os antigos) chamavam de Bino das Piabas, morador do Córrego Fundo. Só que o Menino Jesus que esse diminuto São Benedito carrega também é pretinho.
Ninguém sabe a origem da diminuta escultura (cerca de 20 centímetros). Existem versões fantasiosas, saídas da imaginação (ou da pretensão) de gente acostumada a inventar fatos sem comprovação histórica e fazê-los passar por verdades. Prefiro não comentar, como dizia Copélia, personagem de programa da televisão. Sei apenas que a existência de Bino mergulha na espuma dos dias, se perde na distância do tempo, como bem me ensinou meu avô.
Eu apreciava seguir a peregrinação do santinho. Apreciava os cheiros, as cores, os sons, as fitas, as rendas. O que mais me intrigava, porém, era Bino andar acompanhado pelos tambores do jongo. Ao contrário dos congos, que dançavam o Ticumbi de São Benedito ao som de pandeiros. O que eu não sabia e hoje sei é que o jongo é uma prática de luta e de resistência, usada na diáspora pelos escravizados africanos.
Os tambores do jongo são as vozes dos ancestrais, dos orixás, dos tatás, dos vodus. Então, quando saudade e nostalgia turvam meus olhos como uma sombra do vento debaixo do sol deste escaldante dezembro, penso que os elementos legítimos da ancestralidade afro-brasileira se colam à pequena estatueta de Bino.
É claro que as mesmas honrarias são prestadas aos dois santos pelo Ticumbi. E que sejam louvados, os dois. Mas imagino que, se o termo “padroeiro dos pretos” é uma prerrogativa do São Benedito que mora na igreja católica, o Bino da Piabas, morador do Córrego Fundo, merece o nome de “irmoneiro”. Pois ele é quem, de fato, carrega o vínculo da religiosidade ancestral legada pela mãe África a nós, capixabas, e a nossa cultura.