Foi no entorno do Vale do Cricaré, no extremo Norte do Espírito Santo, que o ticumbi surgiu, há cerca de 300 anos. Os negros africanos, que chegavam ali escravizados e faziam prosperar as fazendas, tiveram um importante papel para a construção da cultura local. O folguedo secular que homenageia o santo negro é dramatizado da seguinte maneira: duas majestades negras, nomeadas rei de congo e rei de bamba, encenam a disputa pelo privilégio de realizar a festa. Eles são acompanhados por outros integrantes brincantes de congo, que os acompanham com pandeiros e violas.
Para celebrar esta tradição, a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (Oses) montou uma apresentação inédita, com sessões hoje e amanhã, e que vai mesclar a música clássica à manifestação popular do ticumbi de São Benedito.
O encontro começou a ser planejado há mais de seis meses segundo a Secult-ES, a última vez que o grupo de ticumbi saiu de Itaúnas para uma apresentação foi na década de 1970. Antes disso, havia saído nos anos 1950 para se apresentar em São Paulo. No total, serão 30 integrantes do ticumbi que se unirão a 90 músicos da Oses.
A ideia do espetáculo é justamente fazer uma homenagem à expressão cultural conduzida por Mestre Terto, de Conceição da Barra. Responsável pelos arranjos e pela montagem da apresentação, o maestro Helder Trefzger conta que uma das intenções é mostrar ao público um pouco da cultura popular do Estado, além de estimular a compreensão da arte como ferramenta de desenvolvimento da sociedade.
É uma via de mão dupla, para entender como a cultura popular e a arte se desenvolvem. No Espírito Santo, tive a oportunidade de conhecer uma riqueza muito grande. Me refiro ao congo, comum na Grande Vitória, ao Boi Pintadinho, ao jongo, ao caxambu..., enumera.
Na visão de Trefzger, a presença de africanos, indígenas e europeus contribuiu para que o Estado tivesse uma enorme variedade de folguedos tão importantes quanto o ticumbi a manifestação popular capixaba se dá por conta da diversidade.
Esse caldeirão se reflete na cultura popular e realça a identidade do Espírito Santo. É algo riquíssimo que deve ser mais difundido, e que muitos vão ter a oportunidade de conhecer melhor por meio do trabalho da orquestra, salienta.
DIVISÃO
O maestro diz que a divisão entre música erudita e popular é cada vez mais questionada, já que as pessoas
passaram a ter uma visão mais global sobre tudo, inclusive sobre a arte.
Temos que olhar a música sem segmentá-la. Óbvio que a orquestra trabalha com música clássica, mas também queremos trazer o clássico para perto das pessoas, ressalta Trefzger.
Para ele, o maior desafio para a concepção do projeto foi unir os componentes da orquestra aos integrantes do grupo folclórico de maneira equilibrada, sem que isso interferisse no resultado do espetáculo.
"Partir de uma coisa que não foi feita ainda e juntar tudo de maneira que não interfira na tradição de tantos anos foi sim um desafio. Mas acho que nosso desafio maior não é o de agora, mas foi com o congo, em 2016, pela coragem de iniciar algo grandioso assim. Mas foi o que nos deu experiência.
Para o maestro, a integração dos componentes dos dois lados é o aspecto mais marcante do concerto, que conseguiu minimizar as barreiras para fazer com que a Oses desse contornos e realces às partes mais dramáticas da expressão de devoção do povo negro.
É marcante o fato de conseguirmos fazer com que os dois grupos dialogassem em harmonia e que a orquestra pudesse interagir dentro do espírito que é o ticumbi. Vamos ressaltar com muito respeito e empenho os momentos de alegria, devoção e dança, promete.
Orquestra Sinfônica celebra o ticumbi
Quando: quarta (21) e quinta (22), às 20h.
Onde: Centro Cultural Sesc Glória. Av. Jerônimo Monteiro, 428, Centro, Vitória.
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Disponíveis na bilheteria do teatro.
Informações: (27) 3232-4750.