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Crônica

Quero fazer uma reclamação: a vida é curta

Nada sobrevive sem a palavra, o sexto sentido, especialmente os casamentos de qualquer sexo ou opção esportiva. E nem ao castigo do divino

Publicado em 09 de Maio de 2023 às 00:20

Públicado em 

09 mai 2023 às 00:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Quero fazer uma reclamação: a vida é curta.
De vez em quando a gente lembra de alguém, cadê? É como se você viesse à luz com sua certa quantidade de vida. Parece haver uma mágica consciência desse fenômeno, e que cada um de nós tivesse a tarefa de medir. O falecimento seria o conjunto de inúmeras partes em declínio.
A medicina através dos séculos foi se encarregando de dividir o corpo humano e suas funções e descobrir como medi-lo. Com isso, ganha a fé das pessoas que medem, através dos exames químicos, físicos e, o mais importante, a fala, o falar e a palavra, principalmente.
Nada sobrevive sem a palavra, o sexto sentido, especialmente os casamentos de qualquer sexo ou opção esportiva. E nem ao castigo do divino. Mas será que é? São poucas as duplas, ou casais, que se utilizam da língua para falar e promover a escuta.
Estou me referindo aqui ao falar-conversar alguma coisa diferente de cozinha, decoração, ciúme, mal do outro, etc. Ou seja, ninguém abre docemente sua opinião para o outro. Quando acontece um fenômeno, aí pinta um papo ligeiro e até aparece alegria. Por exemplo, quando o Fluminense do Rubinho Gomes ganha e continua ganhando. Isso é raríssimo.
Os religiosos profissionais casam com a própria palavra através de suas rezas, cânticos e samba-enredo.
Arrancar uma descrição aproximada da dor real, ou da felicidade que seja, em uma consulta médica é um drama. Se não for alertado, o paciente tem sempre uma história que gostaria que estivesse acontecendo. Geralmente é outra, geralmente menos grave. O ser humano adora falar mal de si mesmo e obter uma graça, sem graça, chamada autopiedade. Não respeitamos a parcialidade dos males que nos atingem: é o tudo ou o nada.
Tentar dar atenção verdadeira é o milagre da cura, e ela sempre pode surgir. Minha professora-orientadora, Inaura Carneiro Leão, que já deu um basta à sua vida terrena, olhava nos olhos e falava muito, mesmo pouco.
Júlio de Mello Filho, a quem devo o que sei de Psicossomática, em seus livros sobre o tema, cita Kafka, em carta à Max Brody, descrevendo a tuberculose que o vitimou. Eram interessados no que se chamaria Psicoimunologia: “As coisas estavam a tal ponto que meu cérebro não podia mais suportar os tormentos e as preocupações que lhes eram infligidos”. Ele dizia: “Eu não faço questão de sentir o sofrimento, mas se há alguém aqui que deseje minha convocação (à dor), eu vou. Teremos ainda algum tempo.
Foi nesse momento que o pulmão se apresentou, pois, aparentemente não tinha muito a perder. “Os debates entre cérebro e pulmão que se desenvolveram à minha revelia, devem ter sido terríveis”.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, pergunta se os órgãos do nosso parlamento sabem falar português ou outra língua qualquer.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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