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Crônica

Chico Buarque e o paralelepípedo de ouro

Duelar com Chico no português? Não é possível, algo mais difícil, delicado e consistente do que encaixar a palavra “paralelepípedo”, como ele fez nos versos da canção “Vai Passar”, é ou não é?

Públicado em 

02 mai 2023 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Quatro anos depois de ter sido anunciado vencedor, Chico Buarque recebeu o prêmio Camões de literatura das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cerimônia foi no Palácio de Queluz, em Sintra, em Portugal
Quatro anos depois de ter sido anunciado vencedor, Chico Buarque recebeu o prêmio Camões de literatura das mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cerimônia foi no Palácio de Queluz, em Sintra, em Portugal Crédito: Ana Rojas/Folhapress
O abençoado rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, virou substantivo comum, sinônimo de craque. Por exemplo, o Botafogo comprou dois pelés para suprir o ponta direita e o esquerdo. Isso sim é que é eternizar um objeto. Assim correm as palavras: o sinônimo de Pelé é jogador de futebol. A unicidade da luz própria do esporte bretão acabou. Qualquer um pode ser pelé. Rei Pelé não existe mais.
Cabe agora, por exemplo, o relato do locutor capixaba: “O Rio Branco, contra a Desportiva Ferroviária, teve um jogador expulso e foi obrigado a jogar em minoria, com 10 pelés".
Enfim, os membros das academias de letras vão ter o que fazer. O recente pelé conserva ou não conserva o acento? Começando com letra minúscula vai ter que disputar com a pele que cobre o corpo humano. Muito embora, como dizia o jornalista Pedro Maia, o elemento corpóreo venha precedido da letra “a”. Em raras ocasiões vem sem “a” mesmo.
De tempos em tempos as mentes privilegiadas das letras nacionais mudam algumas regras, especialmente para diferenciar algum ítem do similar português. Haveria perigo de confusão, no que tange a significados ou pronúncias?
Os escritores da língua mãe mostram a que vieram, quando, por exemplo, lançam aos mares “Os Lusíadas” de Luís de Camões, e as obras de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e milhares de outros autores que produziram pérolas nunca dantes navegadas, sem contar que as mais importantes traduções de psicanálise da língua inglesa são de autoria dos patrícios. E carregam alguns pelés muito habilidosos na história do seu time de futebol, o Costa Pereira, o Euzébio, o Cristiano Ronaldo.
Então.
Chico Buarque de Holanda, quando homenageado agorinha mesmo com o prêmio Camões, em Lisboa, cometeu duas preciosidades linguísticas. O Chico, mesmo falando sério, fala rindo. Durante a solenidade, quando pôde agradecer a oferenda do governo luso, conta, entre dentes do alto do palanque, o jocoso episódio em que sua mulher atravessa a praça para lhe entregar uma gravata, já que ele nem sabia o que era isso, uma gravata.
Em pleno palanque lembrou do episódio e fez um comentário que trai seu estilo. Apertando levemente os dentes comentou cinicamente: “São essas coisas de amor que a gente jamais esquece”.
Agradeceu ao ex-presidente Bolsonaro por haver se recusado em rara atitude de “sujar seu certificado real luso de mérito com sua assinatura”.
Duelar com Chico no português? Não é possível, algo mais difícil, delicado e consistente do que encaixar a palavra “paralelepípedo”, como ele fez nos versos da canção “Vai Passar”, é ou não é?
Dorian Gray, meu cão vira-lata, arguido a respeito, segredou que não existe piada de brasileiro, é tudo verdade.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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