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Crônica

Página infeliz da nossa história

Uma nuvem de esquecimento e uma bizarra cumplicidade identificada no país naquele dia 8 vão construindo a verdadeira conclusão dos inquéritos. Basta ir complicando

Publicado em 25 de Abril de 2023 às 00:30

Públicado em 

25 abr 2023 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Bolsonaristas invadem Congresso, STF e Palácio do Planalto
Bolsonaristas invadem Congresso, STF e Palácio do Planalto Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Como se sabe, para cada lei brasileira existe outra, em sentido contrário. Se faltar alguma coisa, inventa-se um macete esperto como esse gracioso adicional, que de tão obscuro, recebe o batismo de Orçamento Secreto. É isso mesmo que a senhora está pensando. Enfia-se a mão boba no dinheiro público sem precisar justificar ou prestar contas. Ali Babá ficaria ruborizado.
Todos querem tomar conta do dinheiro público, mas para isso é preciso inventar títulos na caverna institucional: é um inferno, fogo contra fogo. A esculhambação do 8 de janeiro parecia o festival do inferno. E continua. Pensei que já havia escutado todas as idiotices possíveis quando Dilma reapareceu, a volta dos que não foram.
Olha só em que mãos estamos: de um lado uma ex-presidente cujo objeto mais importante que tem na cabeça é a brilhantina. No cérebro do outro, Lula, nem isso. Sei não, mas são tantas notícias, sempre no tempo futuro – tradição nacional – que a apuração do óbvio do 8 de janeiro não está com jeito de começar, e muito menos de concluir.
No dia em que os bandidos botaram a cabeça de fora para invadir calmamente a sede do governo, o presidente Lula e a segunda importante autoridade acharam uma boa ocasião para viajar para fora do país. Assim até eu. Os times que ocuparam os palácios invadidos sem resistência eram uma graça.
Foi uma revolução de caranguejos, de dar inveja ao célebre texto do livro de Carlos Heitor Cony. Todos se cumprimentavam e conversavam alegremente – quem invadia e quem era invadido. Não se sabia quem era o quê. O palácio saqueado, inclusive as cadeiras de fino trato que estavam lá desde a inauguração foram arrastadas na mão boba. Só não é pior que perder pra Croácia, aquela vestida de toalha de mesa.
O presidente e o chefe que deveriam ser a defesa do país passeavam de avião internacionalmente. E olha que o tempo não estava bom. A onipotência narcísica garantia o trono. Aterrorizante.
Os invasores, fantasiados de palhaços e arlequins, já estavam acampados alegremente justamente em frente aos quartéis havia um mês. Cá pra nós, pelo menos alguns dos funcionários públicos empurrados sem concurso nas repartições em Brasília poderiam se organizar e cantar “Andança”. Ninguém iria resistir, nem os acampados. A ridícula tentativa de tomar o país na marra foi bizarra.
Então.
 Lula escalando o interminável ministério parece Tite na Seleção. Já os enfeites de joias recebidos sem mais nem menos, ilegalmente, pelo casal ex-presidente é um episódio à parte. A senhora pode imaginar o que foi levado do patrimônio do Alvorada? A confusão das joias presenteadas é sensacional. Como ocorre com todas as leis. “São minhas, são minhas, são minhas", interpretavam todos.
Não quero cansá-los mais. Para cada milímetro de delinquência, apenas papéis sobre papéis, declarações sobre declarações.
Uma nuvem de esquecimento e uma bizarra cumplicidade identificada no país naquele dia 8 vão construindo a verdadeira conclusão dos inquéritos. Basta ir complicando.
Conselho do meu cão vira-lata, Dorian Gray: “Fiquem de olho no ouro do rio Madeira, no Amazonas”

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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