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Crônica

O encantamento do amor de mãe

Estudando a teoria do inconsciente, me deparei com a obra de Melanie Klein, uma psicanalista austríaca que se especializou na dor e na depressão, após a morte do filho em um acidente na neve

Públicado em 

11 abr 2023 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Ela sempre me incentivava a pensar e pensava comigo. Cedinho, eu já estava estudando inglês. A cartilha chamava-se "King's English" e a professora morava e atendia bem em frente de casa. Fazia tudo para não decepcionar minha mãe, dona Maria da Conceição, codinome Mariucha. O mesmo com o francês e seus enlouquecidos verbos, todos irregulares. Fazia o possível.
Passou-se.
Logo que comecei a batalhar no consultório, tratei de conseguir criar um campo de afeto e ouvir do outro principalmente o que não foi dito explicitamente. Estudando a teoria do inconsciente, me deparei com a obra de Melanie Klein, uma psicanalista austríaca que se especializou na dor e na depressão, após a morte do filho em um acidente na neve.
Trata-se paradoxalmente da sua própria introdução à vida. Aos poucos, eu também fui experimentando isso. Tal dom dá acesso à legitimidade de ser um ser único, de criar um campo de recuperação afetivo.
Através dessa capacidade, a mãe diz ou não diz sobre o gozo de viver. Conduz também quem nasce a aprender à sua maneira única e própria as coisas que já estão no mundo. Mas não no seu próprio mundo ainda. Klein recuperou a vida do filho. O que é um psicanalista senão uma mãe que recupera o filho posicionado com o desejo de ressurgir?
Se não, vejamos. Klein defendia que o seio materno, primeiro objeto de relação da criança com o mundo externo, tanto é percebido como seio bom quando amamenta, daí o nome de “seio bom”, quanto é percebido como “seio mau”, quando não alimenta na hora em que a criança assim deseja. Nessas metáforas, ambas as fases são absolutamente necessárias.
Costumo cantar e cavaquinhar Paulinho da Viola e sua “Coisas do Mundo”, que diz assim em um dos versos: “as coisas estão no mundo eu que preciso aprender”. A música quando vem de dentro entra também em mim e me faz uma pessoa melhor, talvez um bom psicanalista, quem sabe. Treinava isso desde Mariucha, creio.
Vejo nela o olhar encantado, as palavras e seus significados e significantes. E olha que ela morreu. Mantenho-a viva e amorosa.
Como se sabe não existe a morte, só o esquecimento.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, às vezes late e deixa cair duas lágrimas.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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