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Crônica

No País de Anjou, direita e esquerda saem às ruas contra a mesma injustiça

Sem querer invejar, sacam a França? Aqui no país tupiniquim as opções são pessoais, um absurdo, por exemplo, Lula ou Bolsonaro; lá, em passeata nas ruas, o povo luta pelo interesse comum

Públicado em 

28 mar 2023 às 00:20
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

França
Trabalhadores da indústria cultural se manifestam do lado de fora do Museu do Louvre, um dos principais pontos turísticos de Paris, na França, nesta segunda-feira, 27 de março de 2023., contra reforma da Previdência Crédito: CHRISTOPHE ENA/AP/Estadão Conteúdo
Cada dia tenho mais certeza: quem escalou o ministério do Lula foi o Tite. Nos itens em que as ciências econômicas pedem autoridade no assunto e criatividade, o pensar revela a histórica confusão e ignorância de quase todos os anteriores e mais um pouquinho.
No estranho critério da escolha para o exercício das complexas funções que sustentam o país, jamais apareceu um Pelé. Baseado em minha parca concepção de governo, creio que Fernando Henrique, escorado pelo Itamar, deu um drible espetacular na economia criando o sistema fantástico da moeda Real, que literalmente salvou o país do caos irreversível.
Se não fosse essa jogada seria o fim. Diga lá a senhora que me lê? Mas FHC fez sua parte e quer ficar longe da incompetência de Bolsonaros, Lulas, e outras milongas mais.
Domingo passado, logo de manhã, assisti pela TV o presidente Lula emitindo um certo sorriso cinematográfico, acirrando um delito. Insinuou ser “malandragem” a competente descoberta dos sistemas de segurança do país sobre o plano para assassinar Moro, um dos colaboradores eleitos do sistema, agora senador.
Neste momento da minha vida não tenho partido nem torço para o Vasco, duas tragédias. Na eleição passada perdi para a ladeira do Sacré Coeur. Esta dá acesso aos sempre mesmos amigos, que votam no mesmo lugar, no colégio Sagrado Coração de Maria, que é a única no mundo em que descer exige mais esforço que subir. Experimenta. Como não sou obrigado a votar e sei que meu voto nunca foi levado suficientemente em conta, cadê a culpa que estava aqui ao lado do patriotismo? A gata Chloé comeu.
Em seguida, veio a notícia de que Sua Excelência estava passando mal e adiou o pulinho que ia dar à China. Mas nada de grave, graças a Deus. Talita Vilela, mineira que fez a opção pelo retorno a Juiz de Fora – somos ambos federais aposentados, desculpe - me disse que o reajuste obrigatório do salário, fenômeno que não acontece há quase oito anos, vai continuar do mesmo jeito.
Ela é legalista a ponto de ter certa intimidade com o ministério de Jesus. É assim com São Bento. Por isso peço sempre um reforço para mim, dado à sua intimidade eclesiástica, rezar, por exemplo, pela absurda indiferença ao salário do médico, meu caso, profissão que é definida com certo desprezo nas altas cúpulas, muitas vezes comparada com o sal: “Imprescindível, todo branco, e custa baratinho”.
Volto a lembrar aos meus fiéis leitores, que toda consulta médica, com ou sem pandemônio, é um contágio direto e de quebra levado para a família. E não se fala mais nisso.
Então...
Sei que também já falei isso, mas insisto em lembrar: a Terra está em guerra. No centro da arena, Rússia e Ucrânia fazendo seus papéis. Mas nós sabemos que todos os habitantes do planeta azul são atingidos profundamente de várias formas. Agora que os dois presidentes resolveram se aproximar pessoalmente, não sei que bicho vai dar.
Como se não fosse o bastante a autofagia bélica das guerras, temos ainda que presenciar o grotesco espetáculo.
Sem querer invejar, sacam a França? Aqui no país tupiniquim as opções são pessoais, um absurdo, por exemplo, Lula ou Bolsonaro, no País de Anjou, em passeata nas ruas, o povo luta pelo interesse comum, seja à direita ou à esquerda, em cima ou embaixo.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, murmura um pensamento de Bernard Shaw: “Todo homem de bom senso aceita o mundo como ele é. Só os loucos tentam reformá-lo. Portanto, todo o progresso depende dos loucos”.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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