A guerra da Ucrânia completou um ano, após a invasão russa a seu território, em 24 de fevereiro de 2022. Putin, o senhor da guerra, o principal responsável por essa decisão, chamou de operação militar na Ucrânia o que, na verdade, era uma guerra de conquista de territórios, que ele considera seus.
Esperava que, rapidamente, atingisse seus objetivos, como ocorreu na Crimeia, em 2014, mas a Otan, a União Europeia e os Estados Unidos reagiram na mesma proporção, enviando armas e munições à Ucrânia, e a guerra se prolonga até hoje. E pode durar muito mais, se continuar assim.
Daí a proposta do presidente Lula de que haja um cessar-fogo e que as partes litigantes se sentem para dialogar, na tentativa de um acordo. A Turquia tentou fazer isso o ano passado, mas não conseguiu. O Brasil, com China, Índia e África do Sul, os outros membros do Brics, podem e devem intermediar esse conflito que já matou milhares de pessoas, nos dois lados, e provocou a saída de mais de dois milhões de refugiados ucranianos e de muitos russos insatisfeitos com a guerra.
A maior parte da população russa apoia o sanguinário Putin, mas muitos jovens não querem ir para uma batalha inglória. Tudo não passa de uma disputa de poder entre as duas maiores potências bélicas do mundo, Rússia e EUA.
Enquanto a guerra da Ucrânia não sai do noticiário, pois acontece no coração da Europa, celeiro do mundo, outras guerras violentas se espalham pelo mundo, sem a mesma repercussão. A guerra no Iêmen já dura, pelo menos, onze anos, com mais de 233 mil mortos e 2,3 milhões de crianças em desnutrição aguda. Falta água potável e atendimento médico à população. A ONU classifica o Iêmen como a pior situação humanitária no mundo. No entanto, pouco tenho visto, no noticiário, notícias sobre essa guerra, ações para terminar com o conflito e campanhas para ajudar as crianças famintas. É como se isso não nos importasse como outros conflitos pelo mundo não europeu.
Também pouco se fala de uma guerra que começou na Etiópia, em novembro de 2020, entre o governo central e um partido político na região do Tigré, nordeste daquele lindo país que visitei há poucos anos. Eu me encantei com a sua cultura milenar, sua diversidade cultural, suas belezas naturais. Nós, idosos, nos lembramos da guerra na Etiópia, nos anos 70 e 80, que provocou a destruição das culturas locais e trouxe morte e destruição a milhares de pessoas.
O país estava recuperando seu equilíbrio econômico, após a guerra da Eritreia e a crise da Somália. Agora, nessa nova guerra, mais de nove milhões de etíopes precisam de ajuda humanitária. Há relatos de crimes de guerra, com extermínio em massa de civis e estupro de mulheres e de crianças, como também ocorre na Ucrânia.
Outra guerra que se prolonga é a guerra da Síria. Estive lá um ano antes de a guerra começar e tudo já estava ficando difícil. Poucos turistas iam àquele país, que tinha tanto sítio histórico para visitar. Viajamos pelo país de norte a sul, de Aleppo, ao norte, à fronteira com a Jordânia, no sul. Fomos até Palmira, o belo reino da rainha Zenóbia, cujas ruínas eram patrimônio da humanidade e foram destruídas pelo infame Estado Islâmico.
Um ano depois, em março de 2011, protestos contra do ditador Bashar Al-Assad se transformaram em uma guerra civil de grande escala, que já dura treze anos. O conflito deixou mais de 500 mil mortos, arrasou cidades, como a antes bela Aleppo, e provocou o êxodo de milhares de pessoas espalhadas pelo mundo. O apoio de Putin a Bashar mantém essa guerra indefinidamente, assim como no Iêmen, Arábia Saudita e Irã apoiam os lados dissidentes.
Além dessas, outras guerras se espalham pelo mundo, no Haiti, em Mianmar, em vários países africanos como Mali, Níger, Burkina Faso, Somália, Congo e Moçambique. Luta-se no Afeganistão, pela Caxemira, entre Índia e Paquistão, por questões fronteiriças, entre China e Índia. Conflitos armados há por toda parte, mesmo no Brasil, como o que ocorre agora entre as forças nacionais contra os garimpeiros invasores de terras indígenas.
Enfim, vivemos “tempos fraturados”, como diria Hobsbawm, mas será que, um dia, já foi diferente? Parece que o “amai-vos uns aos outros” é utopia cristã facilmente substituída pelo “armai-vos uns aos outros” apregoada por falsos messias.