Se um alienígena pousasse na Terra hoje para estudar o comportamento da nossa espécie, ele provavelmente reportaria ao seu planeta natal que o homo sapiens é um mistério insolúvel. Somos seres dotados de um cérebro altamente complexo, capaz de mapear o genoma e criar inteligência artificial. No entanto, quando o assunto é o que colocamos para dentro do próprio corpo, nossa lógica não é apenas falha, é um espetáculo de bizarrice.
O exemplo mais emblemático dessa esquizofrenia coletiva reside no contraste entre duas agulhas: a da vacina e a da caneta emagrecedora.
Há pouco tempo, o mundo parou para acompanhar um debate exaustivo sobre a vacinação. De repente, milhões de pessoas se transformaram em cientistas autodidatas de rede social. Exigia-se a bula traduzida, o histórico de testes clínicos dos últimos dez anos, a certificação da Anvisa, da FDA e da Organização Mundial da Saúde. Mesmo em meio a uma pandemia letal, que ceifou milhares de vida, somente no Brasil.
Questionava-se a velocidade da ciência, a idoneidade dos laboratórios e a geopolítica por trás do imunizante. Uma verdadeira arruaça pública alimentada pelo pretexto da "prudência". “Não vou injetar o que não conheço”, diziam, orgulhosos de seu súbito rigor científico.
Corta a cena para o camarim da vaidade moderna. O mesmo indivíduo que exigia artigos revisados por pares para tomar uma dose de vacina gratuita, oferecida pelo sistema público de saúde, entra em um grupo clandestino de mensagens. Ali, ele encomenda uma "caneta emagrecedora da moda" que cruzou a fronteira no fundo falso de um porta-malas.
A lógica foi para o espaço. A substância não passou pelo crivo de nenhuma agência reguladora nacional, foi transportada sem o controle térmico necessário, provavelmente cozinhando sob o sol da estrada, e tem grandes chances de ser um placebo salino ou, pior, um coquetel químico perigoso.
Ainda assim, o veredito do consumidor é imediato e sem questionamentos. A sentença barata de "fulano usou e perdeu cinco quilos, então funciona", é suficiente para resolver a questão como se mágica fosse. A seringa é espetada na barriga com um sorriso no rosto e nenhuma pergunta na cabeça.
A resposta para esse comportamento bizarro não está na ciência, mas na psicologia humana.
A vacina resolve um problema coletivo e invisível, prevenção de uma doença. Ela apela para o nosso senso de dever social e sobrevivência a longo prazo, algo que o cérebro humano, focado em recompensas imediatas, tem dificuldade de processar. Já a caneta emagrecedora mexe com a urgência estética, com a vaidade e com a promessa do esforço zero. Para a vaidade, o ser humano silencia qualquer rastro de ceticismo.
O ser humano adora um milagre e odeia o processo. A aprovação de uma vacina é burocrática, transparente e sem glamour. O produto contrabandeado traz consigo a mística do "segredo guardado a sete chaves" que promete resolver um problema em semanas.
Olhar para esse cenário é perceber que a nossa suposta "exigência e cuidado com a saúde" muitas vezes não passa de uma cortina de fumaça. Somos profundamente hipócritas quando decidimos em qual ciência confiar.
Desconfiar de vacinas desenvolvidas pelos maiores centros de pesquisa do planeta, mas injetar alegremente no próprio corpo uma substância sem origem garantida comprada na esquina é o ápice do absurdo. O ser humano é, de fato, uma criatura estranha. Rejeita a cura gratuita que salva vidas, mas paga caro pelo risco contrabandeado que promete a ilusão da perfeição.