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Crônica

Meu tio, o guardião do Teatro Amazonas

Cansei de ver tio Jorge fazendo subir e descer o pano de boca pesadíssimo – fora os outros – com as próprias mãos através das roldanas. Pelo menos três vezes fui ao hospital visitá-lo após um acidente causado por um descuido na operação divina

Públicado em 

04 abr 2023 às 00:30
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

O fantástico Teatro Amazonas, em Manaus, foi administrado com suavidade e talento por meu tio Jorge de Brito Inglez Bonates. Tanto é, que logo após sua morte, deram seu nome a um teatro-escola especialmente construído no Parque 10, elegante balneário da cidade, em sua homenagem.
Modéstia à parte, cansei de ser guia mostrando aos turistas do mundo cada palmo de mármore e jacarandá importados em navios desde a Europa, fundamentais para a construção do monumento histórico. Era um prazer.
Tio Jorge era o primogênito, franzino e fortíssimo, elegante e valente, moreno, cabelos lisos e negros, olhos azuis. Os outros irmãos eram Jorgina, Adalberto, Aderbal, Zuleide, Zeneide, Antonio e Aderson, meu pai.
Mesmo crianças assistíamos, contra as ordens da vara de família, da galeria superior, todos os famosos artistas brasileiros e de todo o mundo dos palcos teatrais, oferecendo todos os tipos de shows. Cansamos de ver Procópio Ferreira, Bibi Ferreira e grandes orquestras internacionais.
O espetáculo realizado no teatro, em 2013, chamado “Glorioso - Um desejo de Natal”, foi totalmente dedicado ao tio Jorge. Quatro mil artistas participaram da produção, mas um pequeno grupo de quatro atores interpretou, simultaneamente, em cada um dos palcos a personagem principal, o guardião do Teatro Amazonas, o misterioso Bonates, encenando o mesmo roteiro.
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Teatro Amazonas. Manaus/AM Crédito: Rafael Lampert Zart/Ascom/Wikimedia
A peça contou a história de cinco crianças – Thiago, Mariana, Juliana, Diego e Ceci – que durante a visita ao teatro conheceram Bonates, que lhes mostrou o verdadeiro significado da festa.
A escolha de Jorge de Brito Inglez Bonates como fio condutor e narrador do espetáculo não foi por acaso. Como seu cúmplice naquelas coxias e cortinas, vivi a homenagem nesta lembrança a ele que dedicou sua vida ao monumento e a mim introduziu à rotina dos palcos e grandes espetáculos desde os seis anos de idade. Obrigado.
Segundo registros documentais das décadas de 50 e 60, meu tio Jorge fazia de um tudo no teatro, na simples função de administrador, seu primeiro e último emprego na vida. Consertava desde as máquinas para aparar grama nas áreas externas até a administração do almoxarifado, o que incluía os camarins e suas fantasias, que nós, as crianças, usávamos para os nossos “ensaios”.
Cansei de ver tio Jorge fazendo subir e descer o pano de boca pesadíssimo – fora os outros – com as próprias mãos através das roldanas. Pelo menos três vezes fui ao hospital visitá-lo após um acidente causado por um descuido na operação divina. Naquele tempo as máquinas não serviam à arte.
Relatos da época referem-se ao carinho especial que ele tinha nas suas poucas horas vagas com as crianças visitantes, levando-as pessoalmente a plateia, frisas e camarotes.
Meu irmão Sérgio e eu acompanhavámos o cortejo que muitas vezes estendia-se à escadinha da cúpula de onde se podia avistar toda a cidade de Manaus.
O Pano de Boca do Teatro Amazonas é uma raridade. Foi confeccionado em 1894, pelo artista brasileiro Crispim do Amaral, e descreve o encontro dos rios Negro e Solimões que não se misturam e dão origem ao Rio Amazonas.
No Salão Nobre, onde aconteciam os grandes eventos sociais da época, destaca-se a pintura do teto feita por Domenico de Angelis, em 1899, batizada de “A glorificação das Bellas Artes da Amazônia”.
Tenho como em um resumo essas imagens e significados e a voz de tio Jorge passeando na minha memória e me fabricando emoção e saudade. Até hoje ainda não saí daquele teatro.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, está me olhando fixamente.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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