Os filmes me fazem muita falta, nunca mais fui ao cinema após a pandemia. A programação, pelo menos em Vitória, não é como dantes, suficientemente divulgada, e a praga do coronavírus e sua mortal capacidade de matar acabaram com a rotina cultural que nos preenchia a inteligência em todos os níveis. Nem se fala mais nisso, nem se vai ao cinema como uma atividade lúdica.
Sigmund Freud passou a vida estudando obsessivamente os sonhos e seu envolvimento com o inconsciente. O cinema vende sonhos.
Então.
A idiotice desse tipo de guerra, entre a Ucrânia e a Rússia, envolve todo o mundo, mas concentra a culpa e a glória só nos dois países ou blocos. Diga lá minha senhora, que país não está participando dessa loucura? Melhor sonhar.
Ontem assisti deitado na cama a um filme de Woody Allen,” Match Point”. Devo reconhecer que a memória faz uma reedição de tudo que rondou nossa cabeça, dormindo ou acordado. Isto é, mas a arte final quem define sou eu. A memória traz do inconsciente material sem a intromissão ou censura do consciente e acrescenta ou reprime outras coisitas mais.
O filme do Woody, que introduziu-se na minha noite, é parecido com “Crimes e Pecados”, de 1989. Em ambos, a onipresente luta ferrenha entre a estabilidade e a aventura, entre render-se à moral e à ética e desafiá-la, entre o certo e o errado, brigando entre si, e gerando culpa, principalmente nos cinéfilos distraídos.
De repente, adentra no infinito dos meus sonhos imagens com som e a cores de exageradas vivências que me traziam felicidade. Uma delas, eu já contei mil vezes, é de quando no “Ouriço”, um clube de médicos futeboleiros, no apogeu de um jogo, subo ao infinito e escoro para o fundo das redes, depois de um cruzamento de Wallace Berilurdes. Queridos leitores, podem sonhar à vontade que o prazer é o mesmo da vigília e faz bem para o ego. Calma, o sofrimento também, não se avexe.
Uma vez foi introduzido no meu sonho pedaços do “Discurso do Rei”. Não sabia se prestava atenção ao humor ou tentava entender o roteiro, um inferno. O desempenho de Colin Firth e Geoffrey Rush seguiam impecáveis, e eu querendo fazer a minha “ponta” e deu-se a confusão que sempre se dá em sonhos. Mas é gostoso.
Essa busca insaciável do prazer do meu coração leviano, do que Freud vem chamar de Superego – cuidador da ordem e do desprazer – ficou transitando entre as instâncias do pensamento.
Recebi minha punição.
Jamais sonhei com meu amor celestial, Sophia Loren, mesmo com seu retrato na minha parede. Às vezes, tenho a impressão que ela entreolha para mim piscando um dos seus lindos olhos de amêndoa. Para quem não sabe, nós nos namoramos em segredo desde o primeiro longa-metragem, sem que ela jamais soubesse.
Por mais que eu me empenhe nessa tese, de que a criança deseja a mesmíssima coisa do adulto, nunca recebi resposta da psiquiatria e nem sequer consolo do clube “Amigos para Sempre”. A criança tem direito e necessidade de demonstrar ódio.
Diz Tom Hooper, diretor do filme “Discurso do Rei”, que uma das razões – a mais importante acho - de sua majestade sofrer de gagueira foi passar por constrangimentos na infância e sofrer tudo sempre calado, como se fosse natural, sendo o menino canhoto, obrigá-lo a escrever com a mão direita e comer pouco para seguir as regras da realeza. Essas são algumas das guerras mundiais que deformam a capacidade de amar.
O mundo está sempre fazendo a mesma coisa o tempo todo, com uma tinta aqui, uma tinta ali, uma desculpa aqui, um assassinato ali. Parece que tão cedo não vai mudar.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, ronca ao dormir no pé da escrivaninha.