Cada um tem o santo que merece. O meu é Millôr Fernandes, que chegou à terra através do Meyer, zona norte no Rio de Janeiro. Conheço bem o bairro onde nasceu o Milton Fernandes, que acabou em Ipanema. Precisava da elite e uns pistolões para emoldurar suas graças geniais. Ir de bonde para a Zona Sul era uma aventura urbana muito difícil, e ainda é. Mas chegou lá.
Millôr tinha plena convicção do seu principal item de currículo: criador de frescobol, o único esporte que não admite perdedor e cada atleta faz de um tudo para facilitar a vida do adversário. Elaborou uma bíblia – que chamou do caos - e ajudou a fundar “O Pasquim”, hebdomadário repleto de grandes escritores da época, especialmente na arte do humor, e da ralé que chegava das ondas e bares da zona sul. Não posso deixar de dizer que o humor da resistência.
Então.
Em Ipanema, logo mostrou a que veio. Editava o Pasquim ao lado de Jaguar, o Sérgio Jaguaripe; Ziraldo; Stanislaw Ponte Preta; Fortuna; Cora Rónai; Zélio; Nelson Motta; Henrique Filho, o Henfil; Betinho, seu mano; Rachel de Queiroz; Luiz Carlos Maciel; Paulo Francis; Ivan Lessa; Carlos Leonam; Ruy Castro; Fausto Wolff; alem da inspiração Leila Diniz, e quem mais bem chegasse.
Usando metáforas e mantendo um viés político, publicava no semanário suas crenças.
Dizia nas bíblias que escrevia não entender porque falar em latim o evangelho nos sermões das missas. Um dia desabafou que de repente a Igreja Católica começou a traduzir o latim para línguas nacionais, permitiu às freiras novas indumentárias e a todos os prelados uma participação mais aberta na vida social e mundana da plebe rude. Acabou por admitir o fim do celibato dos padres num gesto de grande sabedoria e visão. Afinal de contas, foi por não se reproduzirem que os santos desapareceram. Não há mais santos como antigamente, só retratos falados.
Tinha concepções próprias sobre vida e morte. Dizia que a vida é breve e da morte ninguém sabe nada. Mas basta ler um pouco de história para verificar que tem muita gente importante que já estava morta há mais de 10 mil anos, e não sabia. Bem, uma coisa é certa: morrer pode não ser definitivo, mas é por muito tempo. O esquecimento dura mais, muitas vezes eternamente.
Preocupava-se com o rumo que a falsa moral impunha à criação das crianças Tentar “formar” o caráter de uma criança não tem perdão. Acho que queria entrar na fórmula que a psicanálise adotou. O sistema afetivo de alguém independe da idade, mas sim do funcionamento do modelo afetivo que rola na relação com o Outro, o chamado amor de mãe.
Millôr não era propriamente um filósofo, mas em uma conversa com o acadêmico e médico Silva Mello, imortal de carteirinha, disse a ele que é preciso olhar sempre de vários ângulos para a percepção mais exata possível do acontecimento da vez, na certeza de que tudo é relativo, o que é óbvio. Elimina, inclusive, a relatividade absoluta. “Um sábio chinês só escrevendo com caracteres chineses será sempre analfabeto”. Nunca entendi direito isso. E a senhora?
”Tem lá nos seus escritos de onde surrupio alguns textos: “Jornalistas, médicos, sociólogos, educadores e, divulgando e elogiando e defendendo o homem comum, perde o potencial inestimável pelo qual ninguém parece se interessar - a pessoa extraordinária”.
Lembro de minhas dissertações onde o novo é o determinante da sobrevivência da pesquisa. Toda ela chega a um ponto onde não se consegue uma conclusão lógica, sem descobrir outro assunto desviante. O desvio ou erro médio determina o novo, a descoberta. A busca frenética dos alquimistas, sem querer, foi o grande campo, por exemplo, da medicina.
Millôr não poupou nem a Academia Brasileira de Letras. “Com aqueles velhinhos metidos em mil gramatiquices, aquilo lá é um lugar em que se acredita que as pessoas têm gênero, mas não têm sexo”. Entendeu? Eu não.
Achava também que o homem é um animal inviável.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, sugere colocar uma toalha de mesa vermelha e branca quadriculada porque quer parabenizar a Croácia, o traidor.