Em dezembro de 1988, rolava no mundo o movimento para a reversão da tendência hospitalocêntrica, onde cabia a desospitalização do Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho.
Anteontem, mexendo e remexendo livros e papéis, na minha tradicional ronda da madrugada, reencontro-me com um exemplar do “Espelho”, o primeiro e único jornal da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, da qual eu havia sido eleito presidente.
Fui para a varanda a ler o tabloide, cheio de orgulho e saudade.
Vou apresentá-lo, então, aos meus resistentes leitores de terça-feira, espero que me perdoem. Os colaboradores eram todos membros da associação, cada qual com seu jeito. No expediente, explicava que a APES não é qualquer uma. Era, como é, filiada à Associação Brasileira de Psiquiatria e, consequentemente, à International Psychiatric Association. É coisa pra burro.
O time da APES era uma seleção: além do locutor que vos fala, Liberato Tristão Schwartz, Julio Prates, Carlos Henrique Costa, Renato Dias Ribeiro, Jovino Araújo, Fausto Amarante, Edson Dias da Costa, Euclides Antônio Broto, Clovis Castelo Miguel, Milton Cots, Antonio Luiz Servino, Agostinho Fava Leite, José Carlos de Tassis, Alcides Pereira da Silva, Nirlan Coelho Evangelista, Paulo Aragão e Guilherme Lara Leite.
No editorial, explicávamos que o momento exigia um posicionamento dos profissionais da área de saúde mental. E a aproximação dos profissionais e programas oficiais da comunidade, especialmente a carente.
Justificava, ainda, no editorial, que estávamos publicando o “Espelho” para “manter vivo o canal de comunicação entre os profissionais da área de psiquiatria e a população de um modo geral”.
“Necessitamos definir a atuação do psiquiatra, valorizar seu reconhecimento legal, divulgando as atuações em psicoterapias, psicofármacos terapias, atuação pericial, entre outros. Para isso temos que nos manter unidos”, escrevia eu.
Neste solitário número impresso registramos a foto da psiquiatra carioca Ana Maria Bittencourt que viera a Vitória ministrar uma palestra, nos emprestando seu grande talento.
Além disso, Liberato Schwartz publicou um texto sobre “O corpo e a mente, considerações sobre um artigo de Winnicott, a Mente e o Psicossoma” e Euclides Brotto abordou a “Relação entre a depressão e o período pré-menstrual, uma precoce abordagem sobre a psicossomática”. E Clóvis Castello Miguel falou da “Relação médico paciente, isto é o Setting”.
No artigo “Por que internou, internou por quê?” tentei mostrar a história do Hospital Adauto Botelho, a “ideia maluca” da nossa visão de meninos apaixonados pela profissão, concluindo com o subtítulo “Ilusão e desilusão”, mostrando as contradições de todo ato humano. Acho que era isso.
A mim me encantava exercer com gosto as minhas profissões de jornalista e psiquiatra. Ainda mais no primeiro e único exercício na presidência da APES.
A ideia do movimento era substituir os hospícios por ações comunitárias, de preferência nas residências dos pacientes, formando um núcleo ideológico a desmistificar a loucura, erradamente confundida com violência até hoje.
Não foi possível a mudança.
Penso que, assim como eu, cada um desse grupo “das terças-feiras” fez sua revolução à sua maneira.
Vou encerrar reproduzindo uma carta amorosa do padre-psiquiatra e militante Waldir Almeida:
“Dr. Paulo Bonates, saudações: Venho cumprimentá-lo pela honrosa e honrada eleição para presidente de nossa Associação. Sei que estou em dívida com vocês: agora, com você em especial. Mas, para o ano 90, terei um novo projeto de trabalho, uma vez que a Teologia da Libertação começa a dar seus primeiros frutos, por um tempo de justiça, através da consciência política que se forma em nossas comunidades. Será também a partir de nossa Associação que conseguiremos melhores condições de trabalho para servirmos nossa gente mais sofrida pelas imposições e pressões de um infernal sistema econômico, incompatível com os direitos humanos. Hoje, exatamente no horário de 20 horas, que você me propôs, tenho uma celebração com o povo das Comunidades Eclesiais de Base. É a festa popular de Santa Luzia. Vamos ouvir o grito articulado do povo. Ficam, pois, aqui, os votos de uma gestão à altura de nossas necessidades e consequente com a sua personalidade, que sempre valorizei (Publicada em “Cartas”, do “Espelho”, Vitória, dezembro, 13/89).
Dorian Gray, meu cão vira-lata, reza em silêncio.