A madrugada é sempre o lugar de todos os poemas ocultos. Costumo visitar e ordenar os livros — eu e meu cachorro — e me deparei com a pérola impressa em 2022, “Memórias da Liberdade - 50 anos de Guaraparistock”, do jornalista Eduardo Maia, neto de Pedro e Paulo Maia, ícones do alto jornalismo que sustentaram principalmente a área investigativa e outros babados.
Trabalhei e convivi com os dois. Pedro Maia dissecou o caso Araceli — o assassinato de uma criança que mudou a cidade de Vitória. Paulo Maia era um editor de texto brilhante. O caso da morte da menina tomou conta do país nos idos de 1973.
Mas deixemos de sofrer.
Eduardo Maia preferiu colocar para a lembrança da velha guarda um insólito acontecimento: o Guaraparistock.
Pois bem.
Era tempo dos hippies e dos Beatles, e um grupo de maravilhosos malucos promoveu em Três Praias, Guarapari, o festival, que, em princípio, seria a réplica do célebre Woodstock, realizado no calor de 1969.
Com muito amor e talento, Eduardo Maia fez uma dedicatória que me emocionou: “Para o querido e gigante Paulo Bonates, lenda do histórico movimento capixaba de intelectuais. Parabéns pela trajetória”.
Lenda, eu?
Mantinha amizade fraterna com a cúpula da organização do megaevento, principalmente Rubinho Gomes e Antonio Alaerte. O festival durou uma semana e meia e aconteceu de um tudo. Estavam contratados praticamente todos os ícones da era pop nacional.
A organização difícil deu no que deu. Mas valeu.
O cantor de soul e outras milongas mais Tony Tornado subiu ao palco para cantar, alto pra burro. Ele próprio, com 1,90 de altura, em um de seus famosos giros de balé, despencou bem em cima de uma espectadora causando-lhe contusões importantes, o que foi uma pena, claro.
Mesmo assim, o festival pegou o rumo de novo.
Alguns artistas famosos desistiram e não apareceram em Guarapari.
Muitos vieram mesmo assim. Alguns patrocinadores, temendo que a vaca fosse definitivamente para o brejo, como se diz, “saltaram fora”.
Para efeito ilustrativo, tenha, caro leitor, a ideia do que foi programado.
Chacrinha, Baby Consuelo, Milton Nascimento, Gal Costa, Macalé, Ângela Maria, Vanderléia, Taiguara, Paulinho da Viola, Evinha. Erasmo Carlos, Jorge Ben, Ivan Lins, Luiz Gonzaga, Elis Regina, Toni Tornado, Trio Ternura, Os Mutantes, Roberto Carlos, Aprígio Lyrio, Chris Portela… Foram três dias de folia. Valeu.
Justiça seja feita, dizem que rolou muito delírio.
Então.
A vida é um dilema perverso. Na armação do festival, os empresários pediam pelo amor de Deus para serem incluídos. Quando começou a dar problema — até a policia pintou — a maioria caiu fora. Os músicos e público que permaneceram fizeram história.
O livro do jornalista Eduardo Maia é brilhante. Em texto direto e suave, é fartamente ilustrado com fotos da época. São 220 páginas.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, esteve por lá.