Veneranda tia Cecy de Britto.
A senhora deve estar cansada de ouvir meus sentimentos e o que escrevo a respeito dessa impune quadrilha que manipula o dinheiro da sua aposentadoria e muitos outros dinheiros públicos, como os estranhos proprietários do tristemente célebre “Orçamento Secreto".
No momento em que escrevo estas mal-traçadas linhas, bons juízes, que prezam a dignidade nas altas cúpulas, estão suando a camisa para interceptar algumas operações perpetradas pelos componentes do golpe tradicional, que consiste em, sem qualquer transparência ou vergonha na cara, enfiar, por meio de emendas remendadas, o dinheiro público nos próprios bolsos.
Imagine, tia, o seu país precisando de tudo, segurança nas ruas e nos campos, um sistema de saúde preventivo, cuidado e proteção ao meio ambiente, prevenção de alagamentos de cidades inteiras, e muito mais, mas a lambança no legislativo nacional comendo solta nas insólitas emendas, não custa repetir.
No país onde uns ganham horrores - essa é a palavra - e a miséria e a delinquência abundam, desvios de dinheiro público deveriam ser punidos seriamente conforme a lei. Lei há, carece de funcionar para todos.
Preste atenção, tia.
As calçadas e ruas - sem falar das favelas, batizadas pelo eufemismo “comunidades” - estão prenhes de necessidades para a simples sobrevivência.
Pouco futuro, muito passado.
O país não consegue se recuperar diante das tragédias cada vez mais frequentes. A desordem das emendas milionárias impera e sem qualquer transparência. É só deixar o tempo passar e tudo se ajeita. As organizações populares sumiram do mapa.
Nessa mesma nação tupiniquim, pagam-se salários incomensuráveis a parcelas privilegiadas dessa desigual sociedade.
Quando aparece uma voz tentando reformar, por exemplo, o Imposto de Renda, ajustando com critérios legais as situações de desigualdades, entra a quadrilha da votação secreta e a coisa não sai do lugar
(Nos debates públicos pré-eleitorais não se toca nesse assunto, é ou não é, tia Cecy?)
Então.
Outro dia assistindo à pérola cinematográfica “Deus é Brasileiro”, de Cacá Diegues, com Antonio Fagundes e Wagner Moura, de 2003, presenciei novamente a genialidade do roteiro ao simbolizar “Deus”, o tema do filme, que mostra as impotências humanas na arte de amar o próximo, esperando sempre milagre para tudo. Com um simbolismo de dar inveja, Cacá Diegues escancara a miséria do povo brasileiro e a impotência de Deus diante disso.
Querido Cacá, adeus.
Você deu o recado, pessoalmente, com esse filme. Brilhou.
Os tais miseráveis que compõem o filme ainda estão aqui.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, também está aqui.