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Governantes

Eis um verbo que ocupa todos os gabinetes das autoridades: fingir

Todo poder é igual, dos reinos emperolados aos psicóticos chefes de gangues e suas variáveis. O importante é que não acabe o império, os privilégios e as isenções

Públicado em 

14 dez 2021 às 02:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Pra começar, o mundo inteiro não entendeu nem de longe a morte da princesa Diana, da Inglaterra. Todas as explicações oficiais foram absurdas. Sobre isso houve um cala-boca geral. Cada explicador tinha uma mentira particular.
As coisas nas poltronas dos reinos são tão arrumadinhas que aconteça o que acontecer, nada ocorre. Ninguém quer lembrar mais. A falta de memória contribui com a onipotência dos proprietários do mundo.
Se não pode resolver, esquece. E, se pode, esquece também. O filho de Lady Di, Harry, que não é bobo nem nada, pegou o boné e uma linda mulher e sumiu.
O importante é que não acabe o império, os privilégios e as isenções.
Todo poder é igual, dos reinos emperolados aos psicóticos chefes de gangues e suas variáveis.
Sobre nosso atual pandemônio, que está assassinando milhares de pessoas, recai toda a espécie de mal. É um horror generalizado, confeitado pela ignorância e pela desorganização mental de todos que mandam na senhora.
Esse pandemônio, como se sabe, tem como cúmplice a lentidão das providências que deveriam ser tomadas por quem está dirigindo o país. Mas, ao em vez disso, é melhor desfilar em uma motocicleta, dirigindo, claro.
A lentidão e a incompetência com que notadamente a presidência trata o assunto é de doer. O que realmente existe neste jogo de poder diabólico? Outro dia, assisti ao príncipe Harry abrir a boca para falar do que sofre no trato com o poder da realeza. Volto a me perguntar o que houve mesmo na nebulosa morte de Lady Di e sua finalidade.
O óbvio, sempre o mesmo óbvio, é o roubo e o desvio de dinheiro público acompanhado da deslavada mentira. Leis com o sentido oposto de outras, todas em vigor. Poderes e superpoderes, mais para o Professor Silvana, do que o Capitão Marvel, a serem aplicados sobre os miseráveis e os habitantes do lixo e da lama. Como defesa, a plebe só pode contar com os samba-enredos do carnaval, que ao som da beleza – esta sim real – denunciam com vigor e apoio da arquibancada os inacabáveis absurdos produzidos pelo abuso da força.
O povo brasileiro não consegue reagir. Tão grave quanto às epidemias e às pandemias é a população sendo queimada. Vide o Norte do país, onde tem mais lenha disponível para a fogueira e a miséria. O governo – este e os anteriores – fingem. Senhoras e senhores, eis um verbo que ocupa todos os gabinetes das autoridades: fingir.
Quando o país não está queimando está alagando.
O auxílio-família, uma esmola ridícula se comparada com, por exemplo, os R$ 35 mil de salário de grande parte dos proprietários do dinheiro público, que ainda recebem benefícios para tudo, é um pinga-pinga ridículo, se comparado ao preço da sobrevivência.
Senão, vejamos.
A anestesia geral da nação, o futebol, é o mais clarividente pandemônio do país. Para onde a senhora olhar vai encontrar o campeonato nacional disso e daquilo, dessa e daquela categoria. Qualquer um tem acesso à glória eterna. Se não tiver dinheiro para o ingresso fica de fora torcendo feito um idiota. Se o seu time perder, jogue fora todo o seu ódio fazendo qualquer coisa de ruim, inclusive atacar o próprio torcedor de seu time. É preciso derivar o ódio da vida dura seguindo a teoria do caos.
Dorian Gray, meu cão vira-lata, quer arranjar para uma passagem de ida em um foguete espacial. Não entendi.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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