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Paulo Bonates

Aprende-se com Woody Allen a como chegar ao nada com tudo

No meu entender, toda a angústia neurótica e até psicótica tem a ver com a realidade da morte

Publicado em 23 de Abril de 2019 às 00:07

Públicado em 

23 abr 2019 às 00:07
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates

Woody Allen Crédito: Divulgação
Outro dia, assisti a uma conferência do psicanalista Elie Cheniaux inspirado no pensamento e obra do diretor e escritor Woody Allen. Apresentado por Lícia Collodetti, abordou com sabedoria os significados dos textos e, principalmente, a relação entre ele e suas personagens, ou seja, entre o que somos quando estamos representando na vida.
Selecionou trechos de filmes e expôs suas interpretações e sua extrema adoração por ele. Logo ao chegar à frente da plateia, uma cena de fina comédia: as primeiras projeções não queriam aparecer na tela de jeito nenhum. Isso mereceu de cara um comentário sutil do Elie: “A projeção não quer funcionar. Justifica-se. Afinal, estamos em um cinema”.
Sanado o mal, apareceu na tela do Cine Jardins, local do evento da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo, cenas e textos de Allen e parte de sua história pessoal e profissional. Ele, no meu entender, disfarça o pavor da morte representando-a através de suas dezenas de personagens.
“Eu não tenho medo de morrer”, diz. “Só não quero estar presente”. “Preciso de uma prova que Deus existe: por exemplo, se Ele neste momento depositar para mim um milhão de dólares”. Sobre a repetição imposta por Deus para todas as coisas através da História, disse o seguinte: “Quer dizer que vou ter que assistir de novo Holiday On Ice”. E por aí vai.
Eu nutro – o expositor também – uma verdadeira adoração pelo artista. Já fui ao Michael's Pub, de Nova York, onde as terças-feiras, às vezes, toca clarinete no restaurante hebraico. Fui a esse lugar algumas vezes para vê-lo e a sua esquizoide. Elie confessou diante de 200 testemunhas que ia do Rio a Nova York para fazer o mesmo. Mais tiete do que eu. Ele conversou com Allen, e eu também.
“A minha vida” – diz em Annie Hall, o filme – “é como sopa de asilo: mal feita, sem tempero, com gosto de nada. E ainda por cima, pouca”.
No meu entender, toda a angústia neurótica e até psicótica tem a ver com a realidade da morte. Os sintomas graves poderiam ser muito bem a representação de uma prestação do morrer. Morrer antes, ou morrer aos poucos e ao mesmo tempo conviver com o ensaio geral: não viver e abandonar o gozo.
Assim, queridos irmãos, vamos treinando para chegar ao nada com tudo. (Deve pagar meia-entrada os mortos leves, sem pecados importantes).
Contracena com mulheres lindas – apenas com mulheres lindas – e aplica-lhes a pena de morte ao final das filmagens: casa-se com elas. E antes que comece a rodar outro filme, divorcia-se e começa tudo de novo. Poderia citar mais de dez mulheres que compartilharam a neurose deste gênio.

Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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