Numa avaliação resumida do que foi e representou a ida de Bolsonaro à reunião do G20 – grupo das 20 maiores economias -, não seria exagero dizer que nada ocorreu além da inusitada pisada no pé da ainda primeira-ministra da Alemanha. Nunca, pelo menos pelo que me vem à memória, a participação de um presidente da República do Brasil se mostrou tão apagada e tão controversa. Mostra-nos, isso sim, o distanciamento, ou mais precisamente, o isolamento do presidente, e por consequência do país, em relação aos principais temas e preocupações do mundo atual.
Na ausência quase que total de encontros pré-agendados e também de algo de profundidade a ser colocado na mesa de discussões, o episódio da pisada acabou ganhando palco. E o mais interessante é que não viria a público não fosse revelada pelo próprio presidente. Se desse episódio, digamos pouco protocolar, abriu-se a brecha para uma conversa no jantar, esta provavelmente teria sido superficial, até porque não se teve notícia do seu teor. Por Bolsonaro, sabe-se que quase ensejou uma dança entre os dois.
Com uma agenda esvaziada, os encontros parece-nos não terem sido guiados por pauta de temas que pudessem proporcionar ao Brasil espaços de diálogos e alinhamentos, ou, que é o que se esperaria, algum protagonismo em temas relevantes para o país e o mundo. Há quem avalie que tenha faltado um trabalho de articulação, de bastidores, por parte do Itamaraty. Ou seja, faltou diplomacia.
Nenhum encontro que poderíamos considerar de peso de fato aconteceu. Alguns foram simplesmente protocolares, caso do presidente da Itália, Sergio Mattarella. Valeria sim um encontro com Mario Draghi, primeiro-ministro italiano, principalmente pelo histórico de relações entre os dois países, mas também pela origem veneta de Bolsonaro. No entanto, o presidente brasileiro preferiu esquivar-se do encerramento do G20 indo visitar Anguillara, uma pequena cidade da região do Vêneto, Norte da Itália, onde nasceu seu bisavô, e lá foi homenageado, não sem protestos locais.
Ainda no Norte da Itália, teve um encontro político com Matteo Salvini, que Bolsonaro o chamou de Salvati, líder da extrema-direita e dirigente máximo do partido Liga Norte. Aliás, Salvini, que apoiou Bolsonaro em 2018, quando era vice-primeiro-ministro na época, no momento está com seu prestígio em baixa, perdendo espaço de poder na recente eleição para prefeitos e vereadores. Até aliados de Salvini o criticaram pelo encontro.
Veja Também
Não faltaram as gafes. Confundiu John Kerry, enviado especial do governo americano, com Jim Carrey, ator e humorista famoso dos Estados Unidos. Acabou virando piada em um talk show americano. Além disso, chamou a Torre de Pisa de torre de pizza, em discurso.
Mas, no fim das contas, como acontece corriqueiramente, o G20 também acabou sendo objeto da contaminação eleitoral, da mesma forma como está sendo a economia, a política e a condução das políticas públicas no país. Nada além do pisão.