Imagine uma fila de 120 caminhões de lixo lotados apenas com sacolas plásticas, uma pilha com meio milhão de pneus usados e uma montanha de 10 mil toneladas de entulho. Todo esse volume de resíduos deixa de poluir o solo do Espírito Santo todos os anos, ganhando um novo ciclo de vida graças à atuação das indústrias locais de reciclagem.
Por trás do descarte recolhido nas cidades, existe uma cadeia produtiva que gera empregos, movimenta a economia e transforma lixo em matéria-prima. A economia circular avança no Estado, convertendo passivos ambientais históricos — como pneus que levariam 600 anos para se decompor — em produtos de alto valor, como pisos emborrachados e anilhas de musculação.
Esse cenário capixaba ganha ainda mais relevância diante do panorama nacional. O Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos anualmente, mas recicla apenas 4%, segundo a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). A maior parte desse montante ainda sobrecarrega os aterros sanitários. No Espírito Santo, contudo, 78 empresas estão subvertendo essa lógica e transformando o descarte em recurso produtivo, de acordo com o Sindicato das Empresas de Reciclagem do Estado (Simreciclo).
Uma dessas engrenagens é a Ciclo, fábrica instalada no bairro Civit I, na Serra, que conta com cerca de 50 funcionários. A empresa adquire, por ano, cerca de 850 toneladas de resíduos plásticos provenientes de associações de catadores e empresas de gerenciamento. São embalagens de arroz, feijão e filmes de centros logísticos que servem de insumos para a fábrica.
Após a coleta, o plástico passa por etapas de separação, moagem e lavagem. Em seguida, o material é transformado em grãos de resina plástica reciclada, que servem como matéria-prima para novos produtos, como sacos de lixo, sacolas personalizadas e lonas utilizadas na agricultura, na construção civil e no setor de rochas ornamentais, como explica o gerente-geral da Ciclo, Pedro Paulo Barros.
Atualmente, a empresa produz aproximadamente 60 toneladas de produtos por mês, totalizando cerca de 720 toneladas por ano. O volume representa cerca de 120 caminhões de lixo carregados somente com plástico que deixam de ser enviados para aterros sanitários.
Além da reciclagem, a empresa também investe em processos internos para reduzir impactos ambientais. Toda a água utilizada na lavagem dos materiais é captada da chuva por meio de reservatórios subterrâneos instalados nos galpões da fábrica, e a energia é adquirida de fontes renováveis, como pequenas hidrelétricas, energia solar e eólica.
Nosso impacto ambiental é muito reduzido. Também evitamos que toneladas de plástico sejam enviadas para aterros sanitários ou descartadas de forma irregular
Pedro Paulo Barros, engenheiro e gerente-geral da Ciclo
A Ciclo foi fundada pelo pai de Pedro Paulo, Aloísio Barros, e outros dois sócios, após ele encerrar as atividades de outra companhia no ramo da reciclagem no início dos anos 2000. Hoje, a empresa está instalada no Civit I e conta com cerca de 50 funcionários. Os colaboradores trabalham em uma escala de 4x3, sempre com a garantia de que uma das folgas seja aos domingos.
“A reciclagem gera impacto ambiental positivo, mas também cria renda e fortalece uma cadeia produtiva importante para a sociedade”, destaca o gerente.
Para os próximos anos, a estratégia é ampliar a participação no segmento de sacolas e embalagens personalizadas produzidas com material reciclado, substituindo embalagens feitas com plástico virgem.
Entulho de obra reutilizado ganha nova vida na construção civil
Desde 2017, a Vila Recicla atua na reciclagem de resíduos da construção civil em parceria com a Marca Ambiental, transformando entulho de obras em materiais reutilizáveis para o próprio setor. A empresa está instalada em Nova Carapina, na Serra, e recebe entre 5 mil e 10 mil toneladas de resíduos mensais, incluindo entulho de obras e materiais siderúrgicos, que passam por um processo de triagem, britagem e peneiramento.
Uma das sócias da unidade, a engenheira civil Amanda Vieira Reginatto, explica que o trabalho começa com a chegada dos resíduos trazidos por transportadores de entulho, construtoras e empresas contratantes. As caçambas para descarte contratadas por clientes residenciais também têm o material encaminhado para a empresa.
O material passa por uma separação manual em mesas de triagem para a retirada de itens inadequados, como plástico, madeira, vidro e ferro, enquanto separadores magnéticos ajudam na remoção de metais. Já concreto, tijolo, cerâmica e alvenaria são transformados em brita e areia recicladas.
Amanda ressalta que o material retorna ao mercado e pode ser utilizado em pavimentação, drenagem e produção de concreto sem função estrutural. “A ideia é promover a logística reversa. O entulho sai da obra e retorna como produto para a construção civil”, detalha.
A Vila Recicla conta com 12 funcionários, que atuam diretamente na operação da planta, além do suporte administrativo realizado pela equipe da Marca Ambiental nas áreas de recursos humanos, financeiro e controladoria.
Esse processo de reaproveitamento reduz a necessidade de extração de recursos em jazidas naturais, como brita e areia retiradas de jazidas. O entulho beneficiado na unidade passa a substituir parte desses materiais em obras de pavimentação, drenagem, terraplanagem e outras aplicações consideradas menos estruturais.
A demanda por esses materiais reciclados tem sido impulsionada pelo crescimento acelerado do setor imobiliário e logístico na Grande Vitória. Amanda aponta que municípios como Serra, Cariacica e Viana vivem um momento de forte expansão, especialmente com a construção de galpões logísticos e centros de distribuição.
Esse tipo de empreendimento exige grande volume de agregados para obras de terraplanagem e preparação de base, criando espaço para a utilização de brita e areia recicladas produzidas a partir de resíduos da construção civil
Amanda Vieira Reginatto, engenheira civil
Destinação correta para pneus inservíveis
Do processo de fabricação até ganharem as estradas, os pneus de carros de passeio seguem uma longa jornada. Com vida útil que varia de 40 a 60 mil quilômetros — a depender do estilo de condução e da calibragem —, eles se tornam “inservíveis” quando não podem mais ser reformados ou recauchutados. É aí que começa o desafio ambiental.
Isso porque o pneu pode levar cerca de 600 anos para se decompor na natureza. Quando queimado, libera uma fumaça com poluentes prejudiciais à qualidade do ar, como carbono e enxofre. Se lançados em áreas descobertas ou terrenos baldios, funcionam como criadouros de mosquitos, transmissores de doenças e, portanto, carecem da responsabilidade dos usuários em descartar corretamente os seus pneus em locais autorizados.
O passivo ambiental, que antes era de difícil decomposição, agora é um ativo para a economia capixaba. No Espírito Santo, a Pneuvix Ambiental trabalha com o desenvolvimento de soluções sustentáveis para reciclagem desse tipo de resíduo.
O processo de transformação envolve o reaproveitamento de 100% do pneu, que é “desmembrado” entre os seus principais componentes: a borracha, o nylon e o aço.
Criada a partir de um projeto de inovação voltado à sustentabilidade, a Pneuvix Ambiental se consolidou como a única recicladora desse material do Espírito Santo e já processa cerca de 6 mil toneladas de pneus inservíveis, o equivalente a 450 mil unidades por ano.
A empresa recebe pneus provenientes de borracharias, transportadoras e lojas especializadas na troca de pneus automotivos e de caminhões.
O diretor executivo da empresa, Luiz Alberto Baptista, explica que o material passa por um processo de trituração física, no qual os principais componentes são separados: aço e borracha. Tudo que é recebido é reaproveitado. O aço, por exemplo, retorna para a indústria siderúrgica, enquanto a borracha é destinada a diferentes aplicações industriais e esportivas.
Baptista reforça que parte é utilizada em campos society, playgrounds, academias, pisos emborrachados e anilhas de musculação. Outra parcela é transformada em asfalto-borracha ou usada como combustível alternativo na indústria cimenteira.
Hoje, o pneu triturado consegue substituir o coque em indústrias de cimento, reduzindo significativamente a pegada de carbono dessas operações
Luiz Alberto Baptista, diretor executivo
A empresa produz ainda o chamado “chip de pneu”, resultado da primeira etapa de trituração, quando o material é reduzido a pedaços de aproximadamente cinco centímetros. Já em uma etapa mais avançada, a borracha é transformada em grânulos e pós com diferentes granulometrias, de acordo com a necessidade de cada cliente.
Até pouco tempo, boa parte da borracha reciclada produzida pela Pneuvix era enviada para empresas de São Paulo, responsáveis pela fabricação dos produtos finais. Agora, o grupo decidiu avançar na cadeia produtiva com a criação da Tribor, que ficará responsável pela fabricação de artefatos de borracha.
“A ideia é agregar valor ao material reciclado aqui mesmo no Estado e fortalecer toda a cadeia produtiva”, destaca.
A empresa conta com 35 funcionários e mantém parcerias com a Secretaria de Justiça (Sejus) para contratação de reeducandos e egressos do sistema prisional, iniciativa que já garantiu selos de ressocialização pelo trabalho e reconhecimento nacional.
Negócios que vão além das questões ambientais
Os negócios sustentáveis trazem vantagens que vão muito além da questão ambiental. Segundo a analista da Unidade de Relações Institucionais do Sebrae/ES e gestora dos Projetos ESG e Negócios de Impacto Socioambiental da instituição, Célia Perim, do ponto de vista econômico, eles reduzem custos operacionais, principalmente com matérias-primas e destinação de resíduos, além de criar novas fontes de receita ao transformar passivos ambientais em ativos econômicos.
Ela afirma que também aumentam a competitividade e a reputação da marca, uma vez que consumidores, investidores e grandes empresas estão cada vez mais atentos a práticas responsáveis e alinhadas aos princípios ESG.
No Brasil, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei Federal nº 12.305/2010) exige a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, o que faz com que empresas sustentáveis estejam mais preparadas para atender exigências regulatórias e participar de cadeias produtivas estruturadas.
Esses negócios têm forte impacto social, gerando trabalho e renda, especialmente para catadores e cooperativas, fortalecendo a economia circular e o desenvolvimento local
Célia Perim, analista do Sebrae
Célia aponta que são diversas as possibilidades de negócios a partir de resíduos. Entre as principais alternativas estão a reciclagem e a reintrodução de materiais no ciclo produtivo, como papel, plástico, vidro, metais, pneus; a compostagem de resíduos orgânicos, transformando resíduo em adubo; e a logística reversa, que envolve a coleta e destinação adequada de embalagens, eletroeletrônicos, pneus e óleos lubrificantes.
“Além disso, cresce o número de iniciativas baseadas em economia circular, como upcycling (transformar resíduos em produtos de maior valor agregado), design de produtos a partir de materiais reaproveitados e prestação de serviços ambientais”, comenta.
Antes de investir, ela salienta que, para quem deseja transformar lixo em negócio, é fundamental analisar a viabilidade técnica e econômica do material a ser trabalhado, como alerta Célia.
Outra orientação essencial é compreender o marco legal, garantindo conformidade com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e com a legislação estadual e municipal. A articulação com cooperativas e associações de catadores também é um ponto estratégico. Eles são atores centrais da cadeia da reciclagem.
“Investimentos em tecnologia, capacitação e gestão aumentam produtividade e qualidade do material, tornando o negócio mais competitivo. Por fim, deve-se avaliar o impacto social e ambiental, pois negócios sustentáveis bem-sucedidos equilibram resultado financeiro, inclusão social e benefício ambiental”, afirma a analista.
Em resumo, para estruturar esse tipo de negócio, o caminho passa por planejamento, conhecimento técnico e apoio institucional.
Segundo ela, o primeiro passo é o mapeamento dos resíduos disponíveis e dos gargalos locais de gestão. Em seguida, vêm a capacitação empreendedora, a formalização do negócio e o acesso a políticas públicas e programas de apoio.
“A construção de parcerias com prefeituras, setor privado e entidades como o Sebrae é essencial. Também é importante investir em educação ambiental, inovação e eficiência logística. Esse conjunto de ações fortalece a cadeia da reciclagem e amplia a escala dos negócios sustentáveis”, complementa.
O Sebrae apoia com consultorias tecnológicas, estudos de viabilidade técnica e econômica entre outras consultorias gerenciais.
Leia mais sobre empreenderismo