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Publicado em 29 de março de 2026 às 07:23
Foi do pedido de uma menina de 10 anos que surgiu o picolé de brigadeiro que, décadas depois, se tornaria o carro-chefe de uma tradicional fábrica capixaba. A criança era Diana Scardua Bragança, que convenceu o pai a testar a receita em casa, madrugada adentro, sem imaginar que um dia assumiria o negócio da família, batizado com seu nome: Diana Sorvetes.>
A fábrica foi criada em 1975 por Deilton Rodrigues Bragança. Ele veio de Minas Gerais, chegou a ser sócio de outra empresa do ramo, mas decidiu apostar no sonho de ter o próprio negócio em São Torquato, Vila Velha. Diana nasceu no mesmo ano da criação do empreendimento.>
O patriarca faleceu em 2021, em meio à pandemia de Covid-19, e a filha precisou assumir as rédeas da empresa. Apesar de trabalhar com o pai desde os 14 anos, comandar o negócio representou um grande desafio e uma responsabilidade inédita, mesmo sendo uma empresa de pequeno porte.>
Até então, sua atuação era semelhante à de qualquer outro trabalhador com carteira assinada: cumpria suas atividades e ia embora, sem envolvimento com a gestão ou com a fabricação dos produtos. Ela exercia, basicamente, funções administrativas.>
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Diana Scardua Bragança
EmpresáriaDiana acrescenta que o pai foi responsável pela formação de vários sorveteiros, que também decidiram abrir seus negócios e tiveram sucesso no ramo. >
Segundo ela, a primeira lição aprendida foi a humildade. Diante da nova realidade, procurou outros empresários do setor e o sindicato para entender o que fariam se estivessem na mesma situação. "Alguns empresários foram me orientando e, assim, fui entendendo mais sobre o segmento de sorvetes e picolés.">
Diana Scardua Bragança
EmpresáriaUm mentor também a ajudou a lidar com o período de transição, a ter calma e a enfrentar com mais facilidade os desafios do setor, marcado pela sazonalidade.>
Em um mercado fortemente influenciado pelas estações do ano, quem trabalha com sorvetes precisa se planejar para quatro meses de alta e oito meses de baixa. O segmento registra uma queda de cerca de 70% na demanda entre os meses de abril e novembro, período em que são feitos testes de novos produtos e ajustes no planejamento.>
“O capixaba não tem o hábito de tomar sorvete e picolé em dias frios e chuvosos, o que resulta em um período de contenção no inverno. Nesse período, aproveitamos para fazer todo o planejamento e tirar o máximo proveito dos meses de calor”, afirma.>
Além disso, ela aproveitou para viajar e participar de feiras, a fim de se atualizar e conversar com empresários de outros Estados — tudo com o objetivo de aprimorar seus conhecimentos e trazer o que há de melhor para a produção.>
Atualmente, a fábrica produz mais de 50 sabores de picolé. Até hoje, o picolé de brigadeiro — que fez o sonho de empreender se tornar realidade — segue entre os mais vendidos. Diana lembra que o pai fazia os testes em casa, ao lado da mãe, muitas vezes durante a noite, até chegar à fórmula considerada perfeita. >
"Naquela época, produzir esse tipo de produto era mais complicado, já que não existia tanta tecnologia nem variedade de matéria-prima como hoje", lembra. >
Também estáo entre os mais vendidos os de açaí (paleta de açaí) e coco. Recentemente, também foi lançada a versão picolé de coco zero.>
A capacidade de produção chega a 15 mil picolés e 150 litros de sorvete por dia, dependendo do maquinário e do número de colaboradores. No entanto, a produção ainda não atingiu esse patamar por enfrentar um problema recorrente em diversos setores da economia: a falta de mão de obra.>
A empresa conta com cerca de 20 colaboradores, distribuídos entre as áreas administrativa, de vendas e de produção. Segundo Diana, a dificuldade em contratar profissionais qualificados está relacionada à ausência de uma formação específica voltada ao setor de sorvetes, como já ocorre nas áreas de confeitaria e panificação.>
Ela destaca que o Sindicato da Indústria de Alimentos Congelados, Supercongelados, Sorvetes, Concentrados e Liofilizados do Espírito Santo (Sincogel-ES) tem trabalhado junto à Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) para a criação de uma escola voltada à formação de profissionais do ramo.>
“Meu pai era autodidata e formou vários trabalhadores. Ele ensinava todas as técnicas e o que acontecia? Esses profissionais saíam para trabalhar ou montar outra empresa e levavam consigo todos os segredos. Se houvesse uma padronização na formação, o profissional chegaria semipreparado, e o diferencial seria dado por cada empresa”, desabafa.>
Nos próximos três anos, Diana pretende expandir a marca para as regiões Norte e Sul do Espírito Santo. Para isso, aposta na busca por distribuidores no interior que ajudem no reposicionamento e na ampliação da presença da marca no mercado. >
“Todo mundo que conhece nosso produto comenta que ele é muito bom. Hoje, as vendas são feitas na loja da fábrica e em estabelecimentos como lanchonetes e padarias. Em um mercado tão competitivo, precisamos mesmo expandir”, destaca.>
E, por falar em competição, a Diana Sorvetes precisa concorrer com grandes marcas do mercado. Essa disputa se torna desleal, segundo a empreendedora, já que os fatores estruturais, as leis e as regras são os mesmos para pequenas, médias e grandes empresas. Além de toda a burocracia, a legislação de rotulagem também impactou muito o setor.>
“Como somos pequenos, procuramos fidelizar o cliente com a produção de picolés e sorvetes mais artesanais e menos industrializados. Dessa forma, conquistamos a confiança do consumidor”, finaliza.>
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