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Empresária do ES herda negócio do pai e transforma marca de sorvetes

Empresária do ES herda negócio do pai e transforma marca de sorvetes

Um dos itens mais vendidos é o picolé de brigadeiro, criado quando Diana Scardua Bragança tinha 10 anos e pediu ao pai que fizesse um produto igual ao vendido por outra marca

Publicado em 29 de março de 2026 às 07:23

Conheça a história da empreendedora que precisou tomar as rédeas dos negócios da família

Foi do pedido de uma menina de 10 anos que surgiu o picolé de brigadeiro que, décadas depois, se tornaria o carro-chefe de uma tradicional fábrica capixaba. A criança era Diana Scardua Bragança, que convenceu o pai a testar a receita em casa, madrugada adentro, sem imaginar que um dia assumiria o negócio da família, batizado com seu nome: Diana Sorvetes.

A fábrica foi criada em 1975 por Deilton Rodrigues Bragança. Ele veio de Minas Gerais, chegou a ser sócio de outra empresa do ramo, mas decidiu apostar no sonho de ter o próprio negócio em São Torquato, Vila Velha. Diana nasceu no mesmo ano da criação do empreendimento.

O patriarca faleceu em 2021, em meio à pandemia de Covid-19, e a filha precisou assumir as rédeas da empresa. Apesar de trabalhar com o pai desde os 14 anos, comandar o negócio representou um grande desafio e uma responsabilidade inédita, mesmo sendo uma empresa de pequeno porte.

Até então, sua atuação era semelhante à de qualquer outro trabalhador com carteira assinada: cumpria suas atividades e ia embora, sem envolvimento com a gestão ou com a fabricação dos produtos. Ela exercia, basicamente, funções administrativas.

Diana Sorvetes
Fábrica da Diana Sorvetes, em São Torquato, Vila Velha Crédito: Fernando Madeira

A fábrica está cravada no meu DNA. Quando assumi, pude ver a dimensão da empresa. Precisei aprender sobre gestão, fabricação, produtos, entre outras coisas. Fui criada dentro da empresa e tenho muito orgulho do legado deixado por meu pai

Diana Scardua Bragança

Empresária

Diana acrescenta que o pai foi responsável pela formação de vários sorveteiros, que também decidiram abrir seus negócios e tiveram sucesso no ramo. 

Segundo ela, a primeira lição aprendida foi a humildade. Diante da nova realidade, procurou outros empresários do setor e o sindicato para entender o que fariam se estivessem na mesma situação. "Alguns empresários foram me orientando e, assim, fui entendendo mais sobre o segmento de sorvetes e picolés."

No dia a dia, fui vivendo, respirando, comendo e até dormindo dentro da minha empresa, até compreender como tudo funcionava. . Levei alguns golpes, mas aprendi que, para ter sucesso, precisava de determinação e de um emocional forte”, lembra.

Diana Scardua Bragança

Empresária

Um mentor também a ajudou a lidar com o período de transição, a ter calma e a enfrentar com mais facilidade os desafios do setor, marcado pela sazonalidade.

Em um mercado fortemente influenciado pelas estações do ano, quem trabalha com sorvetes precisa se planejar para quatro meses de alta e oito meses de baixa. O segmento registra uma queda de cerca de 70% na demanda entre os meses de abril e novembro, período em que são feitos testes de novos produtos e ajustes no planejamento.

“O capixaba não tem o hábito de tomar sorvete e picolé em dias frios e chuvosos, o que resulta em um período de contenção no inverno. Nesse período, aproveitamos para fazer todo o planejamento e tirar o máximo proveito dos meses de calor”, afirma.

Além disso, ela aproveitou para viajar e participar de feiras, a fim de se atualizar e conversar com empresários de outros Estados — tudo com o objetivo de aprimorar seus conhecimentos e trazer o que há de melhor para a produção.

Diana Sorvetes
Fábrica da Diana Sorvetes, em São Torquato, Vila Velha Crédito: Fernando Madeira

Atualmente, a fábrica produz mais de 50 sabores de picolé. Até hoje, o picolé de brigadeiro — que fez o sonho de empreender se tornar realidade — segue entre os mais vendidos. Diana lembra que o pai fazia os testes em casa, ao lado da mãe, muitas vezes durante a noite, até chegar à fórmula considerada perfeita.

"Naquela época, produzir esse tipo de produto era mais complicado, já que não existia tanta tecnologia nem variedade de matéria-prima como hoje", lembra.

Também estáo entre os mais vendidos os de açaí (paleta de açaí) e coco. Recentemente, também foi lançada a versão picolé de coco zero.

A capacidade de produção chega a 15 mil picolés e 150 litros de sorvete por dia, dependendo do maquinário e do número de colaboradores. No entanto, a produção ainda não atingiu esse patamar por enfrentar um problema recorrente em diversos setores da economia: a falta de mão de obra.

A empresa conta com cerca de 20 colaboradores, distribuídos entre as áreas administrativa, de vendas e de produção. Segundo Diana, a dificuldade em contratar profissionais qualificados está relacionada à ausência de uma formação específica voltada ao setor de sorvetes, como já ocorre nas áreas de confeitaria e panificação.

Ela destaca que o Sindicato da Indústria de Alimentos Congelados, Supercongelados, Sorvetes, Concentrados e Liofilizados do Espírito Santo (Sincogel-ES) tem trabalhado junto à Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) para a criação de uma escola voltada à formação de profissionais do ramo.

“Meu pai era autodidata e formou vários trabalhadores. Ele ensinava todas as técnicas e o que acontecia? Esses profissionais saíam para trabalhar ou montar outra empresa e levavam consigo todos os segredos. Se houvesse uma padronização na formação, o profissional chegaria semipreparado, e o diferencial seria dado por cada empresa”, desabafa.

Planos e desafios

Nos próximos três anos, Diana pretende expandir a marca para as regiões Norte e Sul do Espírito Santo. Para isso, aposta na busca por distribuidores no interior que ajudem no reposicionamento e na ampliação da presença da marca no mercado. 

“Todo mundo que conhece nosso produto comenta que ele é muito bom. Hoje, as vendas são feitas na loja da fábrica e em estabelecimentos como lanchonetes e padarias. Em um mercado tão competitivo, precisamos mesmo expandir”, destaca.

E, por falar em competição, a Diana Sorvetes precisa concorrer com grandes marcas do mercado. Essa disputa se torna desleal, segundo a empreendedora, já que os fatores estruturais, as leis e as regras são os mesmos para pequenas, médias e grandes empresas. Além de toda a burocracia, a legislação de rotulagem também impactou muito o setor.

“Como somos pequenos, procuramos fidelizar o cliente com a produção de picolés e sorvetes mais artesanais e menos industrializados. Dessa forma, conquistamos a confiança do consumidor”, finaliza.

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