É comum o mercado antecipar-se às expectativas, precificando-as. Estamos aqui nos referindo a mercado no sentido genérico e amplo. Uma instituição que, em tese, e num sistema capitalista, portanto de livre mercado, tem a função precípua de orientar a alocação de recursos de forma, também em tese, mais eficiente. Tem lá suas imperfeições, mas, mesmo nas suas deficiências, mostra-se adequado em pautar-se em cenários mais prováveis, mesmo que ao fazer isso possa contribuir para que os mesmo se confirmem: princípio da profecia autorrealizável.
O cenário econômico para 2022 parece-nos já dado e precificado, ao preço do momento. Não se prevê nada de extraordinário ou grandes variações do que já se projeta agora. A economia certamente chegará lá mais debilitada do que está hoje. Diferentemente do cenário político, cujo desfecho final ainda se mostra imprevisível, sem nitidez, porém refém da polarização Lula-Bolsonaro. Aliás, polarização esta que também toma o próprio mercado como refém, até que algo de extraordinário aconteça.
De hoje até outubro próximo, no entanto, algumas variáveis se apresentarão como decisivas enquanto portadoras de potencial de provocar mudanças, especialmente no cenário político. Dentre estas, a inflação poderá ter papel preponderante em razão do seu poder de impactar negativamente camadas da população menos protegidas, principalmente pelo fato de “roubar-lhes” poder de compra de seus rendimentos, mesmo que estes possam ser providos pelo Estado, sob a forma de auxílio.
À inflação outros coadjuvantes se juntarão, tais como a ausência de poder de impulso da economia, desemprego nas alturas, que deverá manter-se na faixa dos 13%, juros e câmbio em alta, investimentos privados em queda. Já há quem projete o crescimento da economia em 0,5%, bem abaixo do que se projetava meses atrás.
Em suma, o ambiente geral não se mostra favorável a um cenário melhor do que se projeta agora para a economia. Isso pelo menos enquanto não se vislumbre a perspectiva de um rompimento do que podemos chamar de uma verdadeira “jaula de ferro” que nos impõe o cenário na política.
A “tensão”, portanto, será a tônica a presidir o comportamento do mercado, e tudo que dele decorre, até que se reduza a densa opacidade a obstruir a amplitude e alcance da visão no horizonte mais próximo. Por enquanto, ficamos reféns da polarização.