É inegável que a inflação brasileira carrega traços de aumentos de preços que acontecem de forma generalizada e que ganha escala global. Aliás, um fenômeno que acontece em países da Europa, da Ásia, da América do Sul e também nos Estados Unidos. Porém, não devemos perder de vista que, no caso específico do Brasil, adiciona-se a fatores externos o clima crescentemente instável observado no campo da política, que se reflete sobretudo no câmbio.
Observada num contesto global, a inflação ganha particularidade quando analisada e avaliada nas suas origens causais. Geralmente explicada por choques que podem acontecer do lado da oferta, também denominada de inflação por escassez de oferta; ou do lado da demanda, quando esta se posta acima da capacidade de resposta do sistema produtivo.
Mas vamos encontrar também situações nas quais os preços de bens e serviços são pressionados pelo lado dos custos de produzi-los. E é aqui que entra especificamente, por exemplo, a taxa de câmbio, um preço básico que no Brasil sempre se mostrou muito sensível ao que acontece na política.
Uma explicação plausível para a atual inflação global pode ser encontrada no desarranjo geral causado pela Covid-19, que acabou gerando uma situação de descompasso temporal entre oferta e demanda. Ou seja, a velocidade da queda geral da demanda que aconteceu na primeira metade de 2020, acompanhada de deflação, ou seja, de queda geral de preços, e a sua retomada rápida, na sequência, ajudada sobretudo por políticas fiscais e compensações de perdas de renda, não encontrou – e ainda não encontra - contrapartida de resposta na mesma velocidade do lado da oferta. E é esse descompasso que está pressionando os preços atualmente.
Mas, no caso do Brasil, além dos efeitos desse descompasso, que também acontece internamente, o câmbio ganha uma dimensão muito significativa, principalmente pelo seu potencial de disseminação de impactos em praticamente todas as cadeias produtivas e chegando rapidamente ao bolso dos cidadãos. O exemplo mais oportuno é o dos combustíveis e do gás, cujos preços estão atrelados ao preços internacionais, mas também ao preço do dólar.
Se de um lado somos tomadores de preços internacionais, o que significa que não temos como influenciá-los, de outro, no entanto, quanto ao preço do dólar, fatores internos ganham peso, com predominância daqueles com potencial de influenciar o ambiente político e institucional. Ou seja, o dólar está nas alturas em grande medida em razão de instabilidades intermitentes e crescentes que acontecem no campo da política. E nessas circunstâncias, para o mundo, o Brasil está se tornando menos atrativo para o investidor externo.