A preocupante audácia do tráfico de drogas dos morros de Vitória ao cravar de balas vários edifícios, encurralar dezenas de policiais militares e ainda matar com um tiro na cabeça um paciente indefeso no seu leito de enfermidade trouxe à tona, mais uma vez, a ferida crônica e pustulenta de difícil tratamento: o crime organizado, neste caso representado pelo tráfico ilícito de drogas, o grande impulsionador do crescimento descontrolado da criminalidade e que gera o descrédito da sociedade nas suas polícias, no Ministério Público, no Judiciário, nas autoridades constituídas, nos políticos e nas leis, todos no mesmo cesto, que se mostram ineficazes para superar esse assustador problema.
Esse problemão é de todos, por isso não adianta sair por aí trilhando confortavelmente o caminho fácil da transferência de responsabilidade. Ela é de cada um dentro de sua esfera de atribuição. É bom assumir o que lhe compete e integrar esforços, porque é isso que o patrão, o povo, clama! O que aconteceu deixou os capixabas assombrados e desnorteados diante do tamanho da petulância do tráfico.
O crime organizado subiu os morros enquanto o Estado desceu. O tráfico foi alastrando-se feito uma praga, se estabelecendo como uma espécie de poder paralelo nas mãos das facções criminosas. Nosso vizinho, o Rio de Janeiro, é precursor dessa conjuntura, e precursor significa que aqui pode acontecer igual logo adiante.
Aos poucos os morros de Vitória ficaram dominados pelos traficantes e esses se organizaram em facções. O crime organizado fincou posição e ampliou seu poderio atraindo funcionários públicos corruptos e empossando o tráfico de drogas como o "rei do morro". Esse rei, estrategicamente, gosta de substituir o Estado em sua comunidade: distribui alimentos, remédios, leva quem precisa aos hospitais e ainda resolve litígios. Faz isso por conveniência para garantir a permuta de favores.
Quando querem, os traficantes demonstram sua força expondo armas, atirando a esmo e encurralando policiais, sem contar o foguetório. O moderno poderio bélico que possuem é utilizado para defender sua posição, atacar outras facções, atacar a polícia e para expandir seus negócios tomando a força os mais lucrativos pontos de revenda de drogas.
O tráfico vem conquistando para seus exércitos crianças e adolescentes que funcionam como “aviões, fogueteiros e sentinelas”, que ingressam no crime por total falta de oportunidade, uma tristeza! Passam a sonhar em se transformar em “reis do morro”. Essa realidade garante a substituição permanente e abundante dos integrantes da “corte do rei” que, em sua maioria, são mortos ou presos.
O povo já não aguenta mais ações cinematográficas por parte do Estado, tão somente de força, mas que se mostram ineficazes. São ações que colocam sempre os policiais arriscando suas vidas na linha de frente. Está mais do que claro que na verdade as polícias não são a solução para essa problemática, elas enfrentam, mas não solucionam. O Estado tem que ir além.
Onde está a solução então? Na integração dos esforços, e é o governante o responsável por torná-la uma realidade. É necessário firmar o rumo, focar na gestão por resultado e parar de abraçar o caminho fácil da transferência de responsabilidades que não agrada o cidadão e tão pouco apresenta resultados positivos.
A redução da violência se alcança com trabalho composto das instituições envolvidas na política de segurança, dos órgãos responsáveis pelas políticas sociais, sobretudo aquelas voltadas para os jovens em situação de vulnerabilidade, e com a participação efetiva da sociedade civil.
O que os morros de Vitória precisam são de oportunidades para os seus jovens, uma educação integral de qualidade e boa infraestrutura para seus moradores. Os morros de Vitória precisam receber dignidade, só que para isso não pode haver desigualdade dos investimentos públicos nas diversas áreas da cidade. O Estado precisa efetivamente estar presente lá em cima: urgentemente!