É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

É fogo

"Como diz a velha canção, o amor é um bichinho, então é sobre como o tratamos. É sobre a produção das condições de fazê-lo ascender, florescer, beijar, lamber – e não roer"

Publicado em 16/05/2020 às 07h59
Atualizado em 16/05/2020 às 07h59
fogo
"Pensa um incêndio em alto mar, com a chama violeta em forma de seta apontando" . Crédito: Freepik

(...) Que arde sem se ver.

"O amor é um bichinho que rói, rói, rói.

Rói o coração da gente.

E dói, dói, dói" (Carmem Silva)

Nota: ainda criança, quando ouvia essa música ficava muito encafifada... É que no fundo sempre achava que o amor era um oásis, um pote de mel, um urso panda – mas nunca um roedor.

Falo da cadeira de presidente do fã clube do Amor – amor-entidade, você sabe né?

Amor milagre; amor encontro do encontro, amor da ordem do inesperado, evento magico... Amor-enlace-existencial-energético-místico-corpóreo-carnal. Encaixe entre as mais secretas filosofias, passando pelos ritmos até o cheiros dos fluidos.

Ou em palavras, ainda mais exóticas, defendo o amor porque tenho Netuno na Casa 7, e isso basta, para bom entendedor. (Essa quadratura marca a tentativa de materializar aqui na terra o amor divino, é isso).

Mas meu corpo está exausto... E a cabeça não pára nem um instante, como se dentro dela circulasse um ar quente, uma fumaça que anuncia combustão. É o fogo! Esse impulso potente, chama magnética, elemento inspiracional de ativação dos desejos... É falta de sossego.

Nessa hora ouço o monge que me habita dizer assim: "Calma, Maria, controla essa energia."

Eu acredito nele. É verdade. Tomada pelo fogo, andei mesmo queimando alguns navios... Mas manejar a potência e o magnetismo desse elemento é difícil...

Pensa um incêndio em alto mar, com a chama violeta em forma de seta apontando "por aqui, por aqui"...

"Tenho uma espécie de dever de sonhar sempre, pois, não sendo mais, nem querendo ser mais, que um espectador de mim mesmo, tenho que ter o melhor espetáculo que posso. Assim me construo a ouro e sedas, em salas supostas, palco falso, cenário antigo, sonho criado entre jogos de luzes brandas e músicas – visíveis" (Fernando Pessoa)

Transformo. (Sonho em matéria). Como uma produtora, profissão que por acaso, ou não, exerci por alguns anos, sigo buscando formas, encontrando meios e realizando como seja possível a transmutação disso naquilo. E tal qual o fogo, enquanto elemento alquímico, altero o estado das coisas em proveito do espetáculo que é estar viva.

Com todo respeito, ligo mesmo. Quase sempre, dentro da lei, compareço. Com a nobreza possível, proponho o diálogo franco e direto. Dentro dos limites, respiro junto e digo do que dói, do que é bom, do que é, e do que foi. Chamo!

E não como uma montagem para outro, mas para esse espectador romântico apontado por Pessoa, esse que sou eu mesma, nessa cena teatral contínua.

Sabendo de mim, ou seja, sabendo do que preciso, enfim, produzo melhor isso no mundo. Trabalho melhor. Me torno mais capaz de ouvir e entender melhor o outro, na medida em que sei melhor de mim mesma. Portanto, quanto mais amo, melhor trabalho, melhor sirvo, melhor sinto e faço sentir.

Concluindo, se como diz a velha canção, o amor é um bichinho, então é sobre como o tratamos. É sobre a produção das condições de fazê-lo ascender, florescer, beijar, lamber – e não roer.

Tudo bem, viver dói, disso a gente já sabe. Mas quanto menos ignições desnecessárias, ou quanto menos fogo atearmos às nossas estruturas básicas, melhor. Isso, contudo, só é mesmo possível aos que aprenderam a fazer o trançado, o laço bem dado, primeiro consigo, depois com o mundo e, finalmente, com o outro.

Possível é, só não é fácil.

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