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Crônica

A sábia escola da vida me ensinou tudo sobre a chuva

Vale a pena dar uma xeretada na superfície das pedras expostas ao sol. Não se ria, mas elas começam a suar três dias antes de uma boa semana de chuvas. É ver pra crer

Publicado em 24 de Outubro de 2020 às 10:00

Públicado em 

24 out 2020 às 10:00
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Marcos Alencar e a chuva
Marcos Alencar e a chuva Crédito: Amarildo
As previsões do tempo, informadas pelo Repórter Esso, só vinham a confirmar o que o pessoal lá do mato já sabia. E foi na escola desses batutas que a gente que vivia no interior se graduou. Sem balões atmosféricos, sem traquitanas outras, bastava-nos uma janela aberta.
Era só olhar para o céu, em noite enluarada, para saber se vinha chuva por aí. Se havia um anel luminoso bem próximo da lua, era chuva chegando perto. Se o halo estivesse distante, era chuva caindo ao longe .
E se era lua nova? Céu escuro. Aí dependia da capacidade olfativa de cada um. Eu consigo, debruçado na janela e respirando fundo, dizer se vem chuva por aí. O cheiro adocicado da chuva é único.
Já durante o dia, a história é outra. Já ouviu falar em sambiquira? Esse nome esquisito esconde o sabor de um pequeno e delicioso detalhe da anatomia do frango. Assado ou ensopado, a sambiquira é o popular sobrecu da galinha. E quase ninguém sabe que a sambiquira é na verdade um pequeno depósito de gordura da ave e que dispõe de um estreito canal comunicador através da pele.
Quando há forte probabilidade de chuva, as aves viram o bico para trás, retiram um pouco da gordura e, ainda com o bico, espalham a graxa sobre as penas para evitar que fiquem encharcadas. A natureza é fantástica!
Muito além dos quintais, bem longe dos galinheiros, estão as pastagens do gado. No Sul capixaba, de onde venho, a topografia acidentada deixa à vista, até de quem viaja pelas rodovias, as cenas dos animais pastando lá no alto.
Mas se o tempo ameaça mudar, se há promessa de chuva pesada no ar, você verá o gado descendo do morro buscando o abrigo seguro do curral, muito antes do final da tarde. Hora em que eles habitualmente regressam, quando o tempo é bom.
Ainda no campo, a garantia de tempo bom está no bando de borboletas voando. Eu sei que o coletivo delas é panapaná. Mas acho que só os dicionários sabem disso. Só sei que quanto mais borboletas voando juntas, maior é a garantia de sol.
Vale a pena também dar uma xeretada na superfície das pedras expostas ao sol. Não se ria, mas elas começam a suar três dias antes de uma boa semana de chuvas. É ver pra crer.
Admirador incansável da capacidade observadora dos mais velhos, senti-me tentado a buscar explicações para o fenômeno indesejado do ventre dilatado nos humanos. O barrigão, se é que me entendem. E eis que numa bela manhã, ao fazer a barba, sou tomado por uma revelação.
Uma luz parece apontar para o que seria a causa maior do aceleramento dessa adiposa tragédia. Percebo, então, com muita clareza, que barrigudos padecem da Síndrome do Armário de Banheiro Goyana. Ao se mirar naquele pequeno espelho, que mostra só a carinha das pessoas, todos se acham bacaninhas. Mas, por outro lado, a barriga, longe da visão, segue altaneira, livre, leve e solta.
A barriga para ser tanquinho carece de um espelho do tamanho de cada um de nós. Um espelho que fale toda a verdade. Um espelho insuportável.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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