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É economista e cronista. Neste espaço, aos sábados, dedica-se a crônicas que dialogam com a memória recente do Espírito Santo, da cultura à política, sem deixar de alfinetar os acontecimentos da atualidade locais e nacionais

Nas eleições, temos de escolher novos pastéis de vento. Para que mesmo?

A frigideira está no fogo, a massa já está quase pronta e, mais dia e menos dia, por todas as cidades deste país, as bandejas estarão cheias de novos pastéis de vento para a nossa escolha

Publicado em 26/09/2020 às 10h00
Eleições 2020
Eleições 2020. Crédito: Amarildo

Tenho um amigo que é o mais atento crítico do cotidiano que já conheci. É um verdadeiro Hopalong Cassidy: saca primeiro do que todo mundo. Um mestre no gatilho. Foi ele quem fez este desabafo comigo tão logo as bizarrices de pensamento, palavras e obras (do mix Executivo/Legislativo/ Judiciário) tomaram conta do país. Disse-me ele: “Ai, minha Nossa Senhora do Chuveiro Elétrico, dai-me resistência!”.

Pois bem, essa figura nunca deixou por menos quanto o assunto da mesa era sobre vereadores. “Vereadores, não...”, dizia ele: “Pastéis de vento”. E antes que lhe perguntassem, explicava: “Pastéis por serem todos iguais e de vento por não terem nada por dentro”.

Neste ponto, discordo do meu amigo. Acho que ele peca por generalizar. Conheci, por todos esses anos de vida e ainda conheço, alguns bons pastéis de carne, ótimos pastéis de palmito e uns excelentes pastéis de camarão. Homens públicos que fizeram e fazem com competência o trabalho que prometeram aos seus eleitores. Pastéis raros, mas incapazes de, quase sozinhos, ter o destaque que mereciam na mesa mal posta dos legislativos municipais.

A frigideira está no fogo, a massa já está quase pronta e mais dia e menos dia, por todas as cidades deste país, as bandejas estarão cheias de novos pastéis de vento para a nossa escolha. É o mesmo óleo, a mesma farinha de trigo e o vento estéril de sempre.

A pandemia tirou os torcedores dos estádios, os festeiros vão ficar sem réveillon, os turistas seguram as pontas esperando dias melhores. Mas nossas ruas serão invadidas por milhares de eleitores sonhando com dias melhores para suas cidades. Temos a obrigação de escolher novos pastéis para... para que mesmo?

Outro dia, estive matutando sobre o empenho de quem se dedica, com afinco, ao seu trabalho. Seja como vereador ou até mesmo como... uma faxineira doméstica. Ela, via de regra, trabalha uma vez por semana na sua casa. Elas chegam cedo, põem roupa na máquina pra lavar, passam a roupa que secou no varal, lavam os banheiros, varrem e passam pano molhado nos quartos, salas, lustram os móveis, trocam as roupas de cama, as toalhas dos banheiros e deixam o fogão, a cozinha e a geladeira como novos. Algumas até fazem o almoço. À tardinha voltam para casa. De busão, claro. Tudo isso num único dia. Um vereador trabalha (?) três dias por semana e produz... o que mesmo eles andam produzindo de bom para nossas cidades? E somos nós quem pagamos tanto pelo trabalho dos senhores de terno, quanto pelo da moça trabalhadeira. Eis aí um bom tópico para uma aula de custo/benefício.

Meu pai, carioca do Méier, rapagote ainda, era balconista numa loja de tecidos no centro do Rio. Sempre que podia, dava uma fugidinha na hora do almoço até o Palácio Conde dos Arcos (1918, por aí) onde ainda funcionava o Senado Federal para assistir Rui Barbosa, então senador, discursar. A cada frase, uma aula.

Não espero tamanho brilhantismo de nossos vereadores. Apenas trabalho competente e dedicado como o das nobres faxineiras.

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