Um dia após alvará, condenado por homicídio celebra culto na Comissão de Segurança da Assembleia do ES
Momento de oração
Um dia após alvará, condenado por homicídio celebra culto na Comissão de Segurança da Assembleia do ES
Ex-delegado Cláudio Guerra foi sentenciado como mandante do assassinato da ex-esposa. Ele também foi condenado por ocultar cadáveres na ditadura militar
Ex-delegado do Dops, Cláudio Guerra é pastor da igreja Assembleia de DeusCrédito: Ricardo Medeiros
O ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Espírito Santo Cláudio Antônio Guerra recebeu na terça-feira (28) um alvará de soltura que o livrou da prisão domiciliar que cumpria desde 2019.
Guerra foi condenado, em decisão definitiva, contra a qual não é mais possível apresentar recursos, a 18 anos de prisão após ser acusado como mandante do assassinato da ex-esposa dele, Rosa Maria Cleto, e de Maria da Glória Carvalho Neto, irmã de Rosa.
Os crimes ocorreram em Cariacica, em dezembro de 1980.
O ex-delegado ministrou um culto na sala da Comissão de Segurança e Combate ao Crime Organizado. O colegiado é presidido por Bahiense.
Guerra é pastor da igreja Assembleia de Deus e tem 84 anos de idade.
Além da condenação por homicídio, o ex-delegado foi sentenciado, em junho de 2023, a sete anos de prisão em regime semiaberto pelo crime de ocultação de cadáver.
Ele confessou ter recolhido os corpos de 12 militantes políticos de locais como a "Casa da Morte", em Petrópolis (RJ), e os incinerado na Usina Cambahyba em Campos dos Goytacazes (RJ). Isso ocorreu nos anos de 1974 e 1975, durante a ditadura militar.
Contra essa decisão, da Justiça Federal de Campos, o ex-delegado apresentou recurso.
Nesta quarta (29), Cláudio Guerra pregou palavras bíblicas a servidores da comissão de Segurança da Assembleia, ao deputado Danilo Bahiense e a quem mais quisesse acompanhar o momento de oração.
Um convite para o ato chegou a circular, como mensagem “encaminhada com frequência” no WhatsApp.
A assessoria de imprensa do parlamentar informou que todas as quartas-feiras há um momento de oração na sala da comissão.
Desta vez, o convidado para ministrar a palavra foi Guerra.
“Ele é um pastor, nos procurou com o desejo de participar e nós recebemos todo mundo”, afirmou Bahiense à coluna, sucintamente.
“A Assembleia Legislativa está apta a receber todo cidadão e o Cláudio Guerra possui autorização a participar de cultos”, diz nota enviada pela assessoria do deputado.
"UM HOMEM DE BEM"
Advogado de Cláudio Guerra, Nélio Valdir Bermudes Filho contou à coluna que, antes de o alvará de soltura ser expedido, o pastor já contava com autorização judicial para participar do momento de oração na Comissão de Segurança da Assembleia.
“Foi uma decisão da Vara de Execuções Penais, de semana passada. Acertadamente, a juíza entendeu que, se um preso em regime semiaberto pode sair por seis ou sete dias no ano, uma pessoa em prisão domiciliar também pode. Ele foi autorizado a participar do culto, com horário delimitado”, afirmou Filho.
Mas, a partir do alvará, concedido pela Vara de Execuções Penais de Vila Velha, isso nem é mais necessário.
Guerra passou a cumprir a pena de homicídio em regime aberto.
Esse crime ele nunca admitiu.
“Ele foi condenado como mandante da morte de apenas uma das mulheres, o que, por si só, é uma contradição (a ex-esposa e a ex-cunhada do ex-delegado foram assassinadas, a tiros, ao mesmo tempo, dentro de um carro)”, argumentou o advogado.
Quanto à condenação por ocultação de cadáver, Bermudes Filho lembrou que há recurso contra a decisão e que Cláudio Guerra está coberto pela Lei da Anistia, que perdoou crimes cometidos durante a ditadura militar.
A juíza Maria Isadora Tiveron Frizão, da 2ª Vara Federal de Campos (RJ), contudo, entendeu que ocultação de cadáver é um crime de natureza contínua (uma vez que os corpos seguiram desaparecidos por décadas) e, assim, imprescritível.
“Ele foi condenado por ocultação de cadáver. Mas o que ele fez foi destruição de cadáver. A decisão está equivocada”, rebateu o advogado.
“Naquela época, repórter que falava mal do governo era preso, professor, estudante que falava mal do governo era preso, mas não era culpa dele (Guerra). Era o governo, ele só cumpria ordens”, complementou Bermudes Filho.
“Cláudio Guerra é um homem de bem, mas sempre atuou em casos polêmicos", concluiu.
Correção
30/11/2023 - 5:44
Originalmente, a coluna registrou que o alvará de soltura foi concedido pela 4ª Vara Criminal de Cariacica, mas essa é a Vara na qual tramitou o processo do caso de homicídio. O alvará foi expedido pela Vara de Execuções Penais de Vila Velha, que fiscaliza o regime semiaberto. O texto foi corrigido.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no Gazeta Online/ CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, onde exerce a função de editora-adjunta desde 2020.