Ou a direita se endireita ou vai ser sufocada pelo bolsonarismo
Atos antidemocráticos
Ou a direita se endireita ou vai ser sufocada pelo bolsonarismo
Não. Não é toda a direita que é golpista. Esse espectro político, em especial a centro-direita, entretanto, está com os dias contados se seguir flertando com o extremismo
Imagem de vídeo de manifestante golpista mostra viatura caída em espelho d'água após invasão de prédios na Praça dos Três Poderes, em BrasíliaCrédito: Reprodução / Twitter
Citar o nazismo é sempre arriscado. Tem gente que vai dizer que é exagero ou banalização do termo. Tem gente que vai dizer que o Brasil atual é a própria Alemanha da ascensão de Adolf Hitler.
Mas vou mencionar aqui como um exercício de ciência política, não de comparação com o bolsonarismo em si. Em 1933, o parlamento alemão votou a Lei Plenipotenciária, ou Lei de Concessão de Plenos Poderes.
Poderes esses a serem conferidos ao então chanceler, Hitler. O Partido Nazista, claro, votou em peso a favor.
Mas não teria votos suficientes para fazer a norma ser aprovada. Precisava de mais apoio, além do Partido Popular Alemão, com o qual já estava irmanado.
E o reforço veio do Partido do Centro, conservador e orientado por valores católicos. Em troca, o governo assinou uma concordata com a Igreja Católica, garantindo a liberdade religiosa aos fiéis da denominação no país.
Os sociais-democratas, sozinhos, amargaram uma fragorosa derrota.
Hitler ficou superpoderoso e depois todo mundo sabe no que deu. A conduta do Papa Pio XII quanto à Alemanha nazista é questionável. Mas este texto não é sobre religião.
É sobre ceder aos extremos achando que "eles não são tão ruins assim". Cedo ou cedo, isso se mostra falso.
Tratemos agora do Brasil. Após os atos golpistas do último domingo (8), ainda há quem avalie que os protagonistas não devem ser chamados de golpistas, extremistas e tampouco terroristas. Seriam apenas "manifestantes" exercendo seu direito de discordar do governo.
Ignoram que há uma grande diferença entre discordar e querer derrubar um governo legitimamente eleito ao incitar um golpe militar. Isso é crime.
"Tentar, com emprego de violência ou grave ameaça, abolir o Estado Democrático de Direito, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais: Pena - reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, além da pena correspondente à violência". Artigo 359-L do Código Penal.
Invariavelmente, quem "passa pano" para os que invadiram as sedes dos Três Poderes, na tentativa de interditar a República, é de direita.
Para esses, apenas quem, individual e objetivamente, praticou atos de vandalismo deveria ser detido e punido. Ignoram, mais uma vez, o outro crime.
Também sentem pena dos bolsonaristas mantidos em um ginásio, com direito a advogados, atendimento médico e a acessar celulares e internet.
Chamam o local de "campo de concentração". Um desrespeito, vejam só, às vítimas do nazismo.
A seguirmos esse roteiro, a direita está dizendo que é "ok" tomar o poder mediante violência. Ou incitar que outros o façam. Assim, deixa de ser democrática e se torna apenas bolsonarista.
Os governadores de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), que fazem oposição ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), compareceram a reunião com o petista para deixar claro que nem todos querem se diluir no extremismo.
Suas presenças e discursos no evento foram simbolicamente importantes.
Mas o que dizer dos políticos, inclusive parlamentares com mandato, que seguem dando voz aos golpistas e tratando-os como vítimas em vez de algozes?
Difícil encontrar palavras.
Mas deixo aqui um lembrete: em 1933, o Partido do Centro Alemão era relevante. Desde 1945, com a derrota dos nazistas, foi perdendo força. Hoje, é desimportante.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.