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Golpistas em Brasília

Atos antidemocráticos ensinam: crie corvos e eles lhe comerão os olhos

Talvez alguns parlamentares, que apoiaram diversos ataques à democracia, tenham pensado que, se uma ditadura se impusesse, suas cadeiras no Congresso Nacional seriam mantidas

Publicado em 10 de Janeiro de 2023 às 02:10

Públicado em 

10 jan 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Invasão de manifestantes à Praça dos Três Poderes em Brasília
Bolsonaristas invadiram os prédios da Câmara dos Deputados e do Senado Crédito: Reprodução de vídeo / Redes Sociais
O Partido Liberal contestou, sem provas, o resultado das eleições de 2022. Disse que havia problemas nas urnas, mas somente nas utilizadas no segundo turno, quando o então presidente Jair Bolsonaro (PL) foi derrotado. No primeiro, tudo bem. 
As mesmas máquinas foram usadas nas duas ocasiões, mas esse detalhe foi omitido já que, na primeira etapa do pleito, o partido elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados e diversos senadores.
A eleição de governadores, que alçou certos bolsonaristas ao poder, também não foi questionada.
Ou seja, o resultado da eleição só não presta quando eles perdem. É um resumo da antidemocracia.
Mas nada disso começou com o PL. No cargo, Bolsonaro, eleito pelo PSL, já espalhava, sem provas, indícios ou lógica, desinformação sobre o sistema eleitoral. O discurso foi copiado por diversos apoiadores dele, inclusive congressistas.
Estes viram seu local de trabalho destruído pelos eleitores que eles mesmos insuflaram. 
Bolsonaristas invadiram as sedes dos Três Poderes no último domingo (8) em busca de um golpe militar, fracassado, e quebraram tudo.
Talvez alguns tenham pensado que, se uma ditadura se impusesse, suas cadeiras no Congresso Nacional seriam mantidas. 
O então governador da Guanabara, Carlos Lacerda, apoiou o golpe de 1964. Pensou que, depois, poderia ser ele mesmo candidato à Presidência da República. 
Percebeu que os militares se perpetuariam no poder, o que contrariava seus planos, e passou a ser um crítico do regime. Teve os direitos políticos suspensos, por dez anos, pelo AI-5 em 1968. Ele morreu em 1977.
Além da suspeição do sistema eleitoral, que era ótimo até outro dia, os Poderes da República, como o Judiciário, foram incessantemente atacados nos últimos anos para fortalecer o Executivo, seguindo a cartilha de autocratas aplicada em outros países.
O então ministro das Comunicações, Fabio Faria, chegou a divulgar um factóide alegando que inserções de propaganda eleitoral em rádios beneficiavam o candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em detrimento do presidente, cujos spots seriam transmitidos em menor número. 
O deputado federal Evair de Melo (PP), um dos líderes do governo Bolsonaro, chegou a falar em "crime do TSE" e a dizer que no Espírito Santo isso também ocorreu.
Diante da fragilidade dos indícios que Faria e outros apoiadores de Bolsonaro apresentaram, o próprio ministro se desdisse. 
Fabio Faria admitiu que as falhas, pontuais, na transmissão, foram de responsabilidade do PL, não do TSE. Até pediu desculpas.
Não é a Corte que coordena a veiculação da propaganda eleitoral nas rádios e sim um pool de emissoras alimentadas por peças enviadas pelos partidos.
O episódio não teve nenhum efeito prático, mas serviu como mais uma narrativa de "fraude".
Magno Malta (PL), eleito para voltar ao Senado, endossou, desde que se tornou reprodutor dos discursos do ex-presidente diversas suspeitas sem provas sobre as eleições.
Mas não renunciou ao mandato. Foi diplomado e tudo. 
Agora reprovou a destruição nas sedes dos Três Poderes.
Crie corvos e eles lhes comerão os olhos.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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