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Benefício restrito

O voto de Contarato contra as "saidinhas" de presos

Projeto foi aprovado por maioria esmagadora e uniu os três senadores do ES. Um dos votos chama a atenção e direciona os holofotes ao PT. Batata quente pode acabar nas mãos de Lula

Publicado em 22 de Fevereiro de 2024 às 09:35

Públicado em 

22 fev 2024 às 09:35
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves
Senador Fabiano Contarato
Senador Fabiano Contarato Crédito: Jefferson Rudy/Agência Senado
Não é comum que os três senadores do Espírito Santo, Fabiano Contarato (PT), Magno Malta (PL) e Marcos do Val (Podemos), estejam do mesmo lado. O primeiro é governista e líder da bancada do PT na Casa. Os outros dois, ferrenhos oposicionistas. 
Na última terça-feira (20), porém, todos eles votaram a favor do Projeto de Lei 2253/2022, de autoria do deputado federal Pedro Paulo (MDB-RJ) e relatoria do senador Flávio Bolsonaro (PL). O texto acaba com as saídas temporárias, as chamadas "saidinhas", de presos condenados por crimes praticados com violência ou grave ameaça.
O placar foi acachapante: 62 votos a favor e dois contrários. Contarato, entretanto, não foi apenas "na onda".
Ele, inclusive, queria ampliar o escopo da proposta e proibir a concessão do benefício a todos que estiverem encarcerados por crimes inafiançáveis. Isso abarcaria delitos contra o Estado Democrático de Direito e as pessoas que cumprem pena por atos cometidos no 8 de janeiro. 
A emenda do petista, contudo, foi rejeitada pelo plenário.
O senador foi eleito, em 2018, com a imagem de delegado linha-dura, que ganhou projeção à frente da Delegacia de Delitos de Trânsito. Apesar de então filiado a um partido de centro-esquerda, a Rede, Contarato ganhou a simpatia de eleitores de centro-direita e até de bolsonaristas.
Estes disseram-se "traídos" após notarem a atuação parlamentar do delegado. Embora tenha votado a favor de diversos projetos enviados pelo governo Jair Bolsonaro (PL), Contarato ganhou destaque ao discursar contra políticas do então presidente da República, defender a vacinação na pandemia de Covid-19 e os direitos da comunidade LGBTQIAPN+.
Em janeiro de 2022, o senador trocou de partido e cravou: "Sempre fui petista". O parlamentar já afirmou e reafirmou que não enganou os eleitores e sempre teve posicionamentos à esquerda.
A "SAIDINHA" E A PROGRESSÃO
A restrição a direitos de presidiários, cabe lembrar, é um tema caro à direita. Mas a proibição das "saidinhas" não destoa muito da trajetória de Contarato, considerando a carreira na Polícia Civil.
"Fui delegado de polícia por 27 anos e professor de Direito Penal e Processo Penal", discursou Contarato, na terça-feira. Ele exemplificou que um homem, hipoteticamente, condenado a nove anos de prisão por homicídio praticado com arma de fogo "não vai ficar sequer três anos preso", devido à progressão de regime e medidas de remição de pena.
"São muitos os direitos já estabelecidos", pontuou o petista.
Hoje, presos podem sair da cadeia, temporariamente, em datas comemorativas, como Dia das Mães, desde que atendam a algumas exigências, como ter cumprido 1/6 da pena e apresentar bom comportamento. 
O benefício já não é válido para quem comete crime hediondo (tortura; tráfico de drogas; terrorismo; homicídio qualificado; sequestro e estupro são alguns exemplos).
O projeto aprovado pelo Senado proíbe as "saidinhas" também para condenados por crimes cometidos mediante violência ou grave ameaça, mesmo que não hediondos; acaba com as saídas temporárias em datas comemorativas e as permite apenas para estudo e trabalho externo.
O texto também muda as regras para a progressão de regime, que é quando o preso sai de uma situação mais restritiva para uma mais branda, por exemplo, ao passar do regime fechado para o semiaberto. A proposta obriga o detento a passar por exame criminológico para ser beneficiado. É um teste, a ser aplicado por psicólogos ou psiquiatras, para avaliar a periculosidade da pessoa.
"A saída temporária é mais um benefício que passa não a sensação, mas a certeza da impunidade "
Fabiano Contarato (PT) - Senador
Na prática, a exigência do exame vai tornar mais difícil a progressão de regime, pois o teste demora a ser feito e alguns avaliam que é ineficaz.
Quanto às "saidinhas", 95% dos presos beneficiados retornam ao sistema. Episódios envolvendo os poucos que não voltam à cadeia, contudo, complicam a situação dos demais.
A aprovação do projeto no Senado foi impulsionada pela morte de um sargento da PM em Belo Horizonte. Ele foi baleado enquanto perseguia dois suspeitos. O autor dos disparos havia saído temporariamente da prisão, não retornou e era considerado foragido.
O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, e o líder da bancada do PT, o próprio Contarato, liberaram os colegas para votar como quisessem, ou seja, não orientaram o voto "sim" nem "não" em relação ao Projeto de Lei 2253/2022.
Dos oito senadores do PT, apenas um, Rogério Carvalho (SE), votou contra. À Folha de S.Paulo, Carvalho avaliou que os demais senadores de esquerda cederam ao "populismo de extrema direita":
"É só o medo do julgamento do populismo da extrema direita, fascista. O populismo fascista amedronta muita gente. Mas a gente não pode se amedrontar, ter medo do julgamento público, do debate raso."
Se o projeto for aprovado também na Câmara dos Deputados, vai para a mesa do presidente Lula (PT), para sanção ou veto.
SEM SAÍDA
Com o perdão do trocadilho, aí é o presidente da República que vai ficar sem saída: se vetar, vai contrariar a maior parte dos parlamentares, inclusive os da base aliada, e ainda dar munição aos adversários em pleno ano de eleição municipal.
O PT já tem a pecha de "defender bandido", que é como são ironizadas as pessoas que defendem os direitos humanos de todos os humanos. O curioso é que o chavão "bandido bom é bandido morto" não vale quando o bandido em questão faz parte do mesmo grupo político dos críticos, mas enfim.
Por outro lado, Lula vai sofrer pressão da militância de esquerda, de partidos aliados e do Ministério dos Direitos Humanos para barrar a iniciativa. 
O fato é que o PT, nos últimos anos, deixou a pauta da segurança pública de lado, abrindo espaço para o protagonismo de outros atores e agora sofre as consequências.

Letícia Gonçalves

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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