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Letícia Gonçalves

Muita munição, nenhuma bala de prata: como foi o debate entre Pazolini e Ricardo no 2º turno

Os dois candidatos ao governo do ES protagonizaram embate no estúdio da TV Gazeta. A coluna estava lá, nos bastidores

Publicado em 23 de Outubro de 2026 às 08:41

Públicado em 

23 out 2026 às 08:41
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves
Os candidatos ao Governo do ES Lorenzo Pazolini e Ricardo durante o debate da TV Gazeta
Lorenzo Pazolini, Ricardo Ferraço e Rafaela Marquezini durante o debate da TV Gazeta Carlos Alberto Silva

Muitas munições disparadas. Nenhuma bala de prata. Assim podemos resumir o debate entre os candidatos ao governo do Espírito Santo realizado pela TV Gazeta na noite de quinta-feira (22). 


O ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) e o governador Ricardo Ferraço (MDB) dispararam vários petardos um contra o outro, mas nada com potencial para provocar uma grande reviravolta na reta final do pleito.

Foi o último e único embate entre eles no segundo turno, uma vez que Pazolini não compareceu aos demais.

Aliás, a equipe do candidato do Republicanos só confirmou que ele iria participar do debate às 20h15, pouco antes de o ex-prefeito chegar à Rede Gazeta. O debate começou às 22h30.


Se Pazolini não tivesse aparecido, esta coluna destacaria que o ex-prefeito privou os eleitores da possibilidade de comparar diretamente os dois candidatos em uma fase decisiva do processo eleitoral.

Ele passaria até uma imagem de arrogância, imbuída do clima de "já ganhou", considerando que foi o candidato mais votado no primeiro turno, com ampla vantagem.

A ausência dele poderia ocorrer por razões pragmáticas, para não ficar sob a mira de um adversário que não tem nada a perder. 

Mas o ex-prefeito decidiu prestigiar o debate e ficar frente a frente com Ricardo.

Mais ou menos. Pazolini não olhou diretamente para o governador em nenhum momento. Os dois puderam caminhar livremente pelo estúdio da TV Gazeta e ficaram bem próximos, mas o republicano preferiu evitar o contato visual com o adversário.

Ricardo é quem precisava ter um desempenho excepcional ou torcer por um tropeço colossal do adversário, já que largou atrás na corrida. No fim das contas, ninguém foi muuuito mal e ninguém foi muito bem.

O governador pareceu mais "solto" que nos debates anteriores. Creio que o fato de poder caminhar e gesticular mais livremente o ajudou. 

Já o ex-prefeito de Vitória, apesar de depois do primeiro bloco também ter dado vários passos pelo estúdio, teve uma postura corporal mais estática, mecânica. Talvez faça isso para manter a concentração. Ele estava atento a todas as palavras proferidas pelo adversário. 

Entre os temas abordados e farpas disparadas pelos dois, não houve nenhuma novidade. Em comparação com os debates realizados no primeiro turno, contudo, este foi mais ácido.

Afinal, o dia da votação já é domingo (25). Foi uma espécie de "fale agora ou cale-se para sempre". Quem perder não precisa se calar de verdade (assim esperamos, numa democracia), mas tratou-se do momento final para convencer os eleitores a votar em um dos candidatos nesta eleição.

CHAMEM O RATINHO PARA FAZER DNA

Pazolini e Ricardo travaram uma espécie de briga pela paternidade de realizações da Prefeitura de Vitória e do governo estadual. 

O emedebista acusou, por várias vezes, de "se apropriar do trabalho alheio", enquanto o republicano sustentou que foi o trabalho desenvolvido em Vitória que colaborou com o estado e não o contrário.

"POLÍTICO PROFISSIONAL" X "NÃO ENTENDE NADA"

Na maioria dos blocos com tema livre, foi Ricardo quem ditou os assuntos Ele decidia, no meio dos blocos: "agora vamos falar de educação", ou "saúde", por exemplo, e Pazolini seguia, inserindo farpas sobre outros tópicos no meio da conversa. 

No primeiro bloco, entretanto, por ordem de sorteio, quem começou perguntando foi Pazolini e ele escolheu o tema segurança pública. Delegado da Polícia Civil, o ex-prefeito apresentou-se como um especialista na área e apontou o que considerou falta de conhecimento de Ricardo.

"O candidato não entende nada de segurança pública. Ele recebeu um papel, leu, treinou e decorou", disparou Pazolini.

O assunto voltou à baila no início do segundo bloco, pois o tema sorteado foi "facções criminosas". Ricardo aproveitou para dizer que o ex-prefeito "deixou a polícia há muitos anos" (Pazolini licenciou-se da Polícia Civil em 2018, quando foi eleito deputado estadual): "Você virou um político profissional".

No que o ex-prefeito retrucou: "Político profissional?! Quando eu nasci, o candidato já era vereador. Isso é política profissional".

Aqui, Pazolini aproveitou para citar algo que não tinha falado até agora na campanha, ressaltou que Ricardo não tem formação acadêmica. 

"Eu trabalhei, me esforcei, estudei, prestei um concurso público (...) O candidato adversário não fez isso na sua vida. Busque saber qual é a formação do candidato. Mesmo vindo de uma família com muitas posses, mesmo vindo de uma família com muita condição, ele não quis se qualificar".

"Vejam quanto preconceito, quanta agressividade", retrucou o governador.
Os candidatos ao Governo do ES Lorenzo Pazolini e Ricardo durante o debate da TV Gazeta
Os candidatos ao Governo do ES Lorenzo Pazolini e Ricardo durante o debate da TV Gazeta Carlos Alberto Silva


"MÃO NO BOLSO DOS APOSENTADOS" X APEX

Ricardo trouxe à tona o aumento do desconto previdenciário para servidores aposentados da Prefeitura de Vitória, medida adotada pela gestão de Pazolini em 2021, e questionou se o republicano também colocaria "a mão no bolso" dos servidores aposentados estaduais.

O ex-prefeito não respondeu sobre a questão. Aliás, em diversos momentos do debate Ricardo teve que insistir: "Responda à pergunta".

Em vez disso, no caso da pergunta sobre os aposentados, Pazolini rebateu que Ricardo foi relator da Reforma Trabalhista no Senado e citou o caso Apex:

"Eu não tenho relação com a Apex, eu não tenho relação com o fundo de investimento, eu não dei prejuízo para a sociedade capixaba".

Imediatamente antes, provocou: "Colocar a mão no bolso dos outros não é a minha especialidade".

A Apex partners é uma empresa de investimentos que passa por uma crise após detectar "inconsistências financeiras" suspeitas. Um dos filhos do governador é sócio, mas não é alvo de nenhuma acusação formal.

Em dado momento do debate, o ex-prefeito também citou quem tem "R$ 27 milhões de patrimônio". Esse é o valor dos bens de Ricardo declarados à Justiça Eleitoral.

MAGNO MALTA E CASAGRANDE

Duas pessoas que não estavam presentes no estúdio da TV Gazeta viraram indiretamente personagens do debate. Ricardo questionou Pazolini sobre o senador Magno Malta, presidente estadual do PL:

"A política nova que você anuncia no Espírito Santo, essa que você fala, é na companhia de Magno Malta? Qual é o protagonismo que o seu mentor Magno Malta tem na sua candidatura? É quem indicou a vice e eventualmente estará em composição de governo"

"Olha, o candidato já está prevendo o resultado das eleições", ironizou Pazolini.

Ele não respondeu objetivamente qual seria o papel de Magno no governo: "Nós dialogamos com todos. Ouvir é uma virtude que poucos têm. E é ouvindo que nós vamos extrair sabedoria, sem nenhum tipo de preconceito, governando para aqueles que nos apoiaram, para aqueles que não nos apoiaram, governando para todos os capixabas".

"Esse tipo de afirmação não colabora em nada para o Espírito Santo, ainda mais atacando pessoas que sequer estão aqui", completou o ex-prefeito após Ricardo insistir em perguntar sobre Magno Malta.

Mas Pazolini também mencionou uma pessoa que não estava lá, o ex-governador Renato Casagrande (PSB). Afirmou que o socialista, principal apoiador de Ricardo, foi "indiciado", após Ricardo dizer que o ex-prefeito é que foi indiciado por calúnia e difamação pela Polícia Federal.

"Quem foi indiciado pela Polícia Federal foi o ex-governador que te apoia. Aliás, me parece uma candidatura de caroneiro, porque depende 100% de uma figura ao lado para poder caminhar pelo Espírito Santo", alfinetou. 
Lorenzo Pazolini durante o debate da TV Gazeta
Os candidatos puderam consultar papéis e fazer anotações durente o debate, mas não puderam acessar celulares ou outros aparelhos eletrônicos Carlos Alberto Silva

ESCOLA CÍVICO-MILITAR X 12 ANOS PARA FAZER


Ricardo inovou, em relação ao primeiro turno, e resolveu perguntar a Pazolini porque Vitória não tem uma escola cívico-militar. Estranho, já que os governos Casagrande e Ricardo também não implementaram isso. Será que Ricardo é a favor? 

Pelo tom da questão, parece que ele quis emplacar no adversário o rótulo de "bolsonarista de ocasião".

"Por que você, sendo bolsonarista convicto, não colocou de pé nos cinco anos em que foi prefeito uma escola cívico-militar?". 

Pazolini respondeu que esse projeto foi descontinuado pelo governo federal e, por isso, a Prefeitura de Vitória não conseguiu implementar. Ricardo rebateu que outras cidades, como Cariacica, conseguiram.

No que o ex-prefeito da Capital aproveitou para repetir que os governos Casagrande/Ricardo "tiveram 12 anos para fazer e não fizeram" mais investimentos em educação nem aumentaram ainda mais a remuneração dos professores estaduais.

CONSELHEIROS

Enfim, o debate foi basicamente uma troca de farpas, sem muitas propostas, o que era previsível a esta altura do campeonato, em que os candidatos partem para o tudo ou nada.
Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini recebem orientações das equipes no intervalo do debate da TV Gazeta no segundo turno
Ricardo Ferraço e Lorenzo Pazolini receberam orientações das respectivas equipes nos intervalos Letícia Gonçalves

Os dois puderam levar, cada um, dois assessores que lhes deram conselhos nos intervalos. Pazolini escolheu o presidente estadual do Republicanos, Erick Musso, que é seu principal articulador político, e o advogado Rafael Teixeira de Freitas.


Ricardo, por sua vez, ouviu os conselhos da chefe de gabinete Flávia Mignoni, que tem papel central na campanha do emedebista. Ele também levou ao estúdio o novo marqueteiro que chegou para reforçar o time no segundo turno, o publicitário Renato Quaresma.

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Letícia Gonçalves

Letícia Gonçalves Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiária no site Gazeta Online/CBN Vitória. Em 2008, passou a atuar como repórter da rádio. Em 2012, migrou para a editoria de Política de A Gazeta, tambem como repórter. Exerceu a função de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Letícia Goncalves.

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