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Entrevista

Dizer que feminismo é "do inferno" é negar a História, diz secretária da Mulher

Jacqueline Moraes é ex-vice-governadora do ES, evangélica e filiada ao PSB. Em entrevista à coluna, ela defende o Estado laico e rebate a acusação de usar pasta estadual para se promover politicamente

Publicado em 07 de Abril de 2023 às 02:10

Públicado em 

07 abr 2023 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

Jacqueline Moraes, secretária de Estado de Políticas para as Mulheres
Jacqueline Moraes, secretária de Estado de Políticas para as Mulheres Crédito: Secom-ES/Divulgação
No último dia 28, a Assembleia Legislativa do Espírito Santo aprovou projeto enviado pelo governador Renato Casagrande (PSB) que criou a Secretaria Estadual da Mulher. À frente da pasta, está a ex-vice-governadora Jacqueline Moraes, filiada ao mesmo partido do chefe do Executivo.
A sessão em que o projeto foi avalizado contou com debates rasos e eivados de desinformação, principalmente, por parte da oposição. O deputado Alcãntaro Filho (Republicanos), por exemplo, afirmou que "o feminismo vem direto do inferno", mas votou a favor da criação da secretaria.
Já Lucas Polese (PL), avaliou que a pasta seria desnecessária e, de forma sarcástica, sustentou que os homens é que são as principais vítimas da sociedade e, logo, o governo deveria instituir uma "secretaria dos homens". Isso num estado em que os casos de feminicídio – em que mulheres são mortas apenas por serem mulheres – são alarmantes.
Jacqueline Moraes não foi citada nominalmente, mas alguns parlamentares apontaram que a Secretaria Estadual da Mulher pode ter sido proposta apenas para projetar politicamente "aliados do governador" e funcionar como "cabide de emprego". 
Até João Coser (PT), parlamentar governista, pontuou que pode ter havido o intuito "de beneficiar alguém", "mas o debate sobre políticas para mulheres é importante e é importante que os homens participem". O petista votou a favor da secretaria.
Integrantes da oposição ainda alertaram para o que consideram o risco de a secretaria ser usada para divulgar "a ideologia da esquerda".
O placar foi de 18 votos favoráveis e cinco contrários ao projeto.
A coluna já analisou que há uma cruzada antifeminista e antitrans no Espírito Santo. Além de um apelo cada vez mais forte a pautas religiosas, que destoam das funções do parlamento, seja ele estadual ou municipal.
Jacqueline Moraes integra um partido de centro-esquerda. É evangélica, da Igreja Cristã Filadélfia, e, vez por outra, tem que se equilibrar na vida política e pessoal. Ela é casada com o ex-vereador de Cariacica e atual subsecretário de Habitação de Cariacica Adilson Avelina (Podemos), um político de direita.
A então vice-governadora tentou, em 2022, eleger-se deputada federal, sem sucesso. 
Em entrevista à coluna (confira, abaixo, na íntegra), a secretária da Mulher fala sobre a votação na Assembleia quanto à criação da pasta, defende o Estado laico e manda um recado: 
"A maior vitrine política foi ser a primeira vice-governadora do Espírito Santo. Discurso de homem nenhum vai tirar isso de mim"
Jacqueline Moraes (PSB) - Secretária estadual da Mulher
A Assembleia Legislativa aprovou a criação da Secretaria Estadual da Mulher, mas houve desconfiança por parte de alguns deputados...
É uma discussão ampla que a gente precisa fazer. Na tribuna (do parlamento), as pessoas defendem suas ideologias. Não percebem que, ao combater uma ideologia com outra ideologia, tiram o foco das políticas públicas.
A secretaria vai trabalhar contra a violência contra as mulheres, pela capacitação profissional e pela saúde das mulheres. E também com formação política e social, para que elas compreendam o que é ocupar um espaço de debate e a importância disso.
A que a senhora credita, não apenas no Espírito Santo, o movimento que contrapõe o feminismo e pautas ligadas aos direitos ou à defesa das mulheres?
Há um enfrentamento à participação das mulheres nos espaços de poder, devido ao machismo estrutural e histórico que vitima homens e mulheres, mas, principalmente, as mulheres. Quando vejo debates ideológicos, sempre penso que é para tirar o foco da política pública. 
Trabalham com desinformação, que é um câncer da sociedade. 
Como ao dizer que o feminismo, movimento que garantiu o voto das mulheres e ainda luta por avanços, é uma coisa "do inferno"?
Na hora em que se demoniza o que não é demônio, nega-se a História. A luta das mulheres é histórica, por diretos conquistados a duras penas. 
Isso é negar a História, assim como negam a ciência. Há um discurso negacionista, já que há um público negacionista. Negam até que a Terra é redonda...
A Assembleia aprovou hoje (a entrevista foi feita na terça-feira, 4 de abril), um projeto que proíbe a destinação de recursos públicos a escolas de samba, por exemplo, mas também outras organizações que fizerem sátiras ou quaisquer manifestações culturais consideradas desrespeitosas a "crenças e dogmas religiosos". Também prevê multa a quem cometer vilipêndio contra atos e objetos religiosos. Com a senhora avalia isso?
Não conheço o projeto.
É o Projeto de Lei 93/2023, do deputado estadual Alcântaro Filho (Republicanos). Na justificativa, o parlamentar exemplificou que o samba-enredo de 2023 da Gaviões da Fiel, escola de São Paulo, foi uma "afronta à fé cristã". O nome da música é “Em nome do Pai, dos Filhos e dos Espíritos Santos… Amém” e fala de São Jorge, de entidades do Candomblé, da Irmã Dulce e de Cristo. Em tom elogioso, de celebração e fé. “Na força da fé, nunca estou sozinho”, diz a letra. O deputado disse que há cristofobia no Brasil.
Discordo que exista cristofobia em qualquer manifestação cultural. Sou evangélica, nem conheço a música, não acompanho o carnaval. Mas as comunidades de matriz africana são muito mal compreendidas no Brasil. São comunidades cristãs.
Não acho que a Assembleia deveria ir além da Constituição Federal e das leis que já garantem o culto de qualquer pessoa em qualquer lugar. Mas, claro, os deputados têm autonomia para decidir isso.
Gosto da ideia do Estado laico. O carnaval o Estado fomenta como cultura popular. E eu apoio repasses públicos às escolas de samba, que envolvem geração de renda e emprego durante todo o ano.
Ninguém é a favor de vilipêndio, a lei é clara quanto a isso e o Judiciário atua.
 (Adendo feito pela colunista: o Código Penal já criminaliza o vilipêndio, ou seja, a destruição ou o desrespeito a atos, templos e celebrações religiosas. Quando isso ocorre, denúncias podem ser feitas, o Judiciário avalia e, se comprovado o crime, impõe punições. O projeto aprovado pela Assembleia prevê que haja, também, por parte do governo estadual, que deve regulamentar a lei, uma análise sobre o que é ou não desrespeitoso às religiões. Análise essa que pode ser tão precisa quanto à de Alcântaro Filho sobre o samba-enredo da Gaviões da Fiel).
Voltando ao dia da votação sobre a criação da Secretaria da Mulher, alguns deputados estão desconfiados de que a pasta seja usada pela senhora como vitrine para se promover politicamente, eleitoralmente, embora seu nome não tenha sido citado...
Acho até graça. A secretaria foi criada porque existe um debate social e ela estava prevista no planejamento estratégico do governo estadual. É uma luta das mulheres há anos, não é uma luta da Jacqueline.
Como vice-governadora, eu busquei todas as secretarias para fazer uma política intersetorial para mulheres. Isso foi uma articulação da vice-governadoria. 
Como não temos mais uma vice mulher (o vice-governador é Ricardo Ferraço), o governador decidiu criar a secretaria. Isso não tem nada a ver com eleição. 
A maior vitrine política foi ser a primeira vice-governadora do Espírito Santo. Discurso de homem nenhum vai tirar isso de mim. Não me intimido com esses discursos.
Mas, enfim, a senhora tem planos eleitorais para 2024? E para 2026?
Em 2024, vou ajudar os parceiros, acompanhar, como membra da Executiva nacional e da Executiva estadual do PSB. Para 2026, não tenho planos, vivo um dia de cada vez.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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