O soldado PM visita o amigo pintor que está se tratando de um câncerCrédito: Joelson Lima
Preservar a vida é certamente a mais nobre missão de um policial. A Força Tática do 3º Batalhão da Polícia Militar (3º BPM) de Alegre, na região do Caparaó, sabe disso e se for preciso usa as armas da solidariedade e da criatividade para salvar um semelhante. E para eles esse princípio não é teoria militar, é uma forma concreta mesmo de ajudar a sociedade.
A primeira missão humanitária do grupamento aconteceu em agosto do ano passado. Os PMs se mobilizaram para conseguir um transplante de medula óssea para o menino Breno, de 8 anos, que nasceu com uma doença rara chamada “Anemia de Fanconi”. Agora, surge uma nova batalha também muito nobre: esses homens treinados para a guerra da violência urbana estão mobilizados para salvar a vida de um pintor de paredes que está se tratando de um câncer muito agressivo.
No último sábado (10), um dos integrantes da Força Tática, o soldado Jonatas Teixeira da Silva, conhecido como soldado Silva, ganhou uma rifa de um Peugeot 206 promovida pela família do pintor Jailson da Silva Tavares, 42 anos, para custear as despesas decorrentes do tratamento de um câncer que Jailson tem na cabeça. O felizardo PM surpreendeu: foi receber o prêmio e o devolveu à família. O gesto causou comoção em Alegre.
“Foi muito emocionante. Meu marido não consegue falar e está enxergando mal, como consequência do efeito severo da doença, mas ele ouviu e sentiu a presença do Jonatas. Apesar das visitas restritas, os dois se deram um abraço e meu marido chorou muito. São gestos como esse que amenizam a nossa dor”, descreve Luziana Souza Alvarenga Tavares, a mulher de Jailson.
O gesto de Jonatas causou grande repercussão nas redes sociais. Ele conta que depois de ter devolvido o prêmio que ganhou é reconhecido e cumprimentado nas ruas pelas pessoas. “Sinceramente, acho que não fiz nada demais. Fico até constrangido quando me elogiam por fazer apenas o que acho que qualquer um deveria fazer”, afirmou o tímido policial, preocupado em cumprir o regulamento da corporação em relação a falar com a imprensa.
PMs da Força Tática do Batalhão de Alegre: o soldado Jonatas é o do círculo ao lado de um meninoCrédito: Divulgação
Mas a atitude de Jonatas não foi isolada. Ele contou que comprou dois bilhetes da rifa a R$ 100 cada um, mas que outros quatro colegas seus da Força Tática lhe deram também o dinheiro para que adquirisse os bilhetes da rifa com uma recomendação: qualquer um que ganhasse daria de volta o carro para a família. A família conseguiu arrecadar R$ 18 mil com a rifa, mas o dinheiro já está todo comprometido. Mesmo assim, resolveu que não vai rifar o veículo de novo.
"Ele me emocionou e estou muito feliz em poder ajudar"
Soldado PM Jonatas - Sobre seu ato de ajudar o amigo Jailson
Luziana conta que, desde que Jailson passou mal em casa, em meados de maio deste ano, foram muitos gastos, que agora estão sendo quitados. “Foi tudo muito rápido. Ele começou a ficar triste e começamos a tratar como depressão. Estava tomando medicação e de repente entrou em coma dentro de casa. Ficou dois dias dormindo direto e corremos com ele para Guaçuí. O médico mandou para Cachoeiro sem nos dizer o que era, só disse que era caso cirúrgico. Depois dias depois, ele estava sendo operado na cabeça. O câncer começou no nariz e se espalhou rapidamente. O tumor no cérebro estava já muito grande”, explica Luziana.
Segundo a mulher, Jailson tinha rinite e sinusite e qualquer sintoma ele tratava como se fosse alergia. Foi assim que o câncer se desenvolveu, de acordo com ela: “Ele ficou 40 dias no Hospital Evangélico e está há mais de dois meses em casa. Nós dois trabalhávamos. Eu tive que sair do emprego para cuidar dele”.
Jailson, a filha e a esposa Luziana, antes de o pintor ficar doenteCrédito: Álgum de família
Eles estão casados há 18 anos. Luziana foi morar em Brasília, terra de Jailson, para trabalhar. “Eram tempos difíceis, quando não havia emprego em Alegre”, ela lembra. Lá, conheceu Jailson. Eles se casaram e voltaram para Alegre. Nesses dias em que o marido está acamado, um irmão dele veio da capital federal para ajudá-la, mas vai ter que voltar.
Foi por intermédio da igreja que frequentavam juntos, a Batista Renovada, que Jailson e o soldado Silva se conheceram e ficaram amigos, há oito anos. Silva é de Alegre, tem sete anos de Polícia Militar e está esperando a promoção a cabo aguardada pelos militares capixabas para o final deste mês de outubro. Antes, ele trabalhou quatro anos na PM do Rio de Janeiro, na tensa e perigosa Unidade de Polícia Pacificadora da Maré.
Toda a cidade de Alegre está se mobilizando em torno do drama de Jaílson e Luziana, pais de uma jovem de 14 anos. A mulher conta que tem recebido todo apoio do município, através da Secretaria de Saúde, mas reconhece: “Os recursos na cidade são poucos e muita coisa extrapola a competência do município”. Ela agora luta para transferir o marido para o Hospital Santa Rita em Vitória. O encaminhamento foi feito, mas a vaga não sai.
“A gente precisa que ele vá para o Santa Rita para continuar o tratamento. Não sabemos se ele vai ter que fazer outra cirurgia no nariz e nem se vai fazer quimio ou radioterapia. Cada dia é uma angústia”, desabafa a mulher. Para piorar, o INSS pagou dois meses de auxílio-saúde e suspendeu o benefício, exigindo novo laudo para retornar com o pagamento. Enquanto isso, a família vive de doações da comunidade.
Nesta terça-feira (13) o hospital respondeu, após 60 dias de espera, negando a vaga a Jailson. A família já acionou a Justiça. "Estou muito triste. Esse todo e ele em casa, sem tratamento", lamentou Luziana, a caminho do Fórum da Cidade.
“Comida e coisas de primeira necessidade não faltam. Sempre chega alguém com doações, mas há outras coisas que a gente precisa de dinheiro e isso é mais difícil. Fizemos dívidas e estamos pagando com o dinheiro da rifa do carro. Não vamos rifar de novo, porque ele pode precisar do carro durante o período de tratamento”, disse.
"Ele ficou 40 dias no Hospital Evangélico e está há mais de dois meses em casa. Nós dois trabalhávamos. Eu tive que sair do emprego para cuidar dele"
Luziana - Mulher de Jaílson, contando o drama da família
Eles moram de aluguel no bairro Vila do Sul, bem próximo ao 3º Batalhão da PM, e pagam R$ 450 por mês. Agora, a família entrou na prefeitura com pedido do benefício do aluguel social e está aguardando. Joílson é pintor alpinista, aqueles especialistas que trabalham em prédios altos, mas também de casas, trabalhando por conta própria. Luziana trabalhava como cuidadora e num laboratório de Raios-X até que foi preciso parar para cuidar do marido.
Para quem quiser ajudar a família de Jailson, a mulher dele liberou o número da conta para depósitos: Luziana Souza Alvarenga Tavares – Banco do Brasil – Ag. 0281 – cc 16586-7.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.