Há 20 anos uma pequena marcenaria no bairro Divino Espírito Santo, em
Vila Velha, é a fonte de sustento de duas famílias que fabricam móveis de grande porte sob encomenda. Mas veio a
crise, e como toda adversidade pode também significar uma oportunidade, os empreendedores perceberam que havia uma demanda de negócios reprimida em meio à devastação da
Covid-19: as pessoas mudaram os hábitos e passaram a tirar o calçado na hora em que chegam da rua e entram em casa.
O
saudável hábito higiênico em tempos de pandemia, entretanto, acabou provocando um problema novo de “logística” doméstica: onde colocar sapatos, tênis, sandálias ou chinelos em local adequado para que não fiquem acumulados em corredores de apartamentos ou espalhados na entrada das residências? Pronto, eis o cenário ideal para quem pudesse encontrar uma solução para essa encrenca. E os dois empresários vila-velhenses a encontraram.
Os donos da fabriqueta, Alexandre Ivo Peterle Ribeiro, de 30 anos, e seu irmão Felipe Peterle Ribeiro, 27, perceberam a demanda, fizeram o projeto e começaram a fabricar uma sapateira delicada e original. O primeiro cliente foi o jovem empresário Lucas Paradella, dono de uma hamburgueria em Itapoã e amigo de Felipe, que foi quem mostrou para ele o projeto. Lucas gostou, comprou o produto e começou a falar da novidade com amigos, que foram comprando e contando para outros amigos, no que poderia ser chamado de “círculo virtuoso”.
Ana Carolina, mulher de Alexandre e secretária da marcenaria, é quem cuida das encomendas e conta que tudo foi muito rápido. Ela disse que, para cuidar desse “pequeno negócio”, foi criada uma outra empresa. As primeiras encomendas foram entregues em junho e hoje já são, em média, 100 sapateiras despachadas para os clientes por semana. É tudo muito rápido e eficiente: o comprador encomenda a sapateira numa semana e a recebe na semana seguinte.
E a crise? Que crise? O marido e o cunhado de Ana Carolina se encarregam de fabricar o pequeno móvel, mas quem disse que deram conta de tantos pedidos? Tiveram de contratar quatro funcionários para trabalhar na produção e na entrega, que por enquanto está restrita a Vila Velha e
Vitória. Realistas e sem querer ser atropelados pela dinâmica do negócio, a meta atual é de crescer somente 10%, ou seja, entregar 110 sapateiras por semana.
E em tempos de altíssima exposição, eles não têm sequer perfil nas redes sociais ou página na internet. Tudo é resultado de clientes satisfeitos que falam para outros clientes. Ou seja, está em curso a mais poderosa ferramenta de marketing de todos os tempos: o velho, bom e eficiente boca a boca.
Mas, de olho na oportunidade, eles não descartam contratar mais pessoas, uma “ousadia” jamais imaginada antes de surgir essa oportunidade. Até porque há mais dois produtos sendo desenvolvidos pela empresa canela-verde: uma sapateira com almofadas para a pessoa sentar-se para calçar os sapatos e um modelo de mesinha de cabeceira de cama. Cada sapateira custa R$ 60 e o pagamento é feito por meio de aplicativo ou à vista - há preços diferenciados para quantidades maiores.
E assim, Alexandre e Felipe, com a ajuda de Ana Carolina, vão eternizando uma cultura que vem de gerações. A família é proveniente de
São Gabriel da Palha, no Noroeste do Estado, onde o avô deles, Antônio Ivo Peterle, tinha a Fábrica de Móveis Perterle.
A profissão foi ensinada ao filho, Nilson Ribeiro, e passada aos netos, Alexandre e Felipe, que cresceram em contato com a atividade. A família mudou-se para Vila Velha, Nilson criou a empresa de móveis e, há dois anos, os dois filhos assumiram o comando dos negócios. Pelo visto a tradição familiar no ramo de móveis está preservada. Assim como a higiene e a segurança sanitária dos seus clientes em tempos de pandemia.