Considerado, fisicamente, o mais bem-preparado dos participantes da Guerrilha do Caparaó, dono de um estilo de vida saudável até depois de envelhecer, o ex-subtenente Jelcy Rodrigues Correa, cassado pela
ditadura militar por seus discursos e sua militância nos movimentos anteriores ao
Golpe de 1964, morreu vítima da
Covid, aos 87 anos, no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro.
Promovido a capitão pelos atos de reparação promovidos após o fim do regime militar, Jelcy Corrêa perdeu uma batalha de quase um mês. Foi internado no dia 29 de maio, depois de apresentar sintomas da doença, foi logo levado para a UTI, passou seu aniversário do dia 10 de junho em coma e morreu na última sexta-feira (26), sendo sepultado sem velório.
Seu antigo comandante na Guerrilha do Caparaó, Amadeu Felipe da Luz Ferreira, 85 anos, mora em Londrina (PR) e o definiu como “um homem de muita dignidade e moral muito elevada, sempre solidário com seus companheiros, antes, durante e mesmo depois do movimento guerrilheiro”.
Jelcy era paraquedista do
Exército, com 160 saltos até estourar o golpe civil-militar que promoveu dura perseguição a militares considerados oposicionistas, desde oficiais de alta patente até os praças.
O jornalista José Caldas da Costa, autor do premiado livro “Caparaó – a primeira guerrilha contra a ditadura” (Editora Boitempo-SP), conta que Jelcy Correa foi o primeiro a ser preso no Caparaó, no final de março, quando desceu a serra e esperava um trem em Espera Feliz, ao lado de outro combatente, Josué Cerejo, que era sargento da
Aeronáutica.
Jelcy tinha decidido abandonar a guerrilha e retornar para casa, e foi acompanhado por Josué. Resolveram fazer a barba para melhorar a aparência. Denunciado por agricultores da região, foram cercados e presos. Três dias depois, a Polícia de Minas Gerais cercou o restante do grupo remanescente, de oito guerrilheiros, no alto da serra e começava a colocar fim ao movimento, seguindo-se a condenação deles a cumprir pena pela Justiça Militar.
A Guerrilha do Caparaó, ocorrida na divisa de
Minas Gerais com o Espírito Santo, foi um movimento armado promovido por militares do Exército, Marinha e Aeronáutica, perseguidos pela ditadura. Eles se reuniram em torno do núcleo jango-brizolista no Uruguai e planejaram iniciar a resistência da teoria do foco, que dominava o pensamento de esquerda no mundo bipolarizado pela Guerra Fria nos anos 60.
Apesar de na Serra do Caparaó terem passado em torno de 20 guerrilheiros, o movimento tinha uma estrutura de apoio de mais de 120 pessoas, coordenadas no Rio de Janeiro pelo professor Demaria Boiteux, então presidente do
PSB, que estava na clandestinidade.
Principal autor a escrever sobre o movimento, José Caldas, que é natural de
Alegre, na região do Caparaó, diz que o tempo entre a chegada dos primeiros homens à serra, no inverno de 1966, e a prisão dos últimos participantes, entre 27 de março e 10 de abril de 1967, foi de aproximadamente nove meses.
Não chegou a haver operação direta da guerrilha. Os participantes foram presos ainda na fase de preparação, quando percorriam o maciço do Caparaó cavando tocas e guardando alimentos, remédios e armas.
Em setembro do ano passado, a
TV Gazeta cobriu com destaque a descoberta do local onde os guerrilheiros fizeram seu primeiro acampamento. Semanas depois, técnicos do
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) visitaram o local e o declararam a “Casa dos Guerrilheiros” como patrimônio do Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA), depois de analisar os materiais encontrados por moradores numa toca utilizada para guardar os primeiros suprimentos quando os guerrilheiros se instalaram como “criadores de cabras”.