Vizinhos do pedreiro aposentado José Donizete de Souza, de 68 anos, têm cumprido um ritual que demonstra que nem tudo está perdido no caos urbano nosso de cada dia que tende a desumanizar as relações.
O corpo dele foi velado ao longo do dia seguinte (26), na
Igreja Evangélica Assembleia de Deus, que sua filha frequentava, e depois foi levado para ser sepultado em Minas Gerais, de onde veio há três anos para morar em Vila Velha.
Quem passa pela Rua João Pessoa de Matos, na Praia da Costa, percebe que num banco de madeira de uma casa simples, com placa de venda, há várias flores colocadas por vizinhos com mensagens em sua homenagem.
No local, era comum ver Donizete sentado, de manhã, no meio ou no final do dia. Como bom mineiro, Donizete gostava de uma prosa e, com sua simplicidade, era querido pelos vizinhos do condomínio Jardim Hebron. Alguns deles costumavam descer e sentar-se no banco simples ao lado de Donizete.
Os que, comumente, faziam isso continuaram a descer, sentar-se no banco, em frente à casa fechada (a família ainda está em Minas) e ficar em silêncio como à espera do amigo que já não pode aparecer. Ao lado, o saudoso vizinho é substituído pelos vasos de flores.
A cena das flores no banco foi registrada pelo jornalista José Caldas da Costa, um dos moradores que costumavam conversar com Donizete.
“Sempre que saía da garagem de carro o procurava com os olhos. Quase sempre ele estava lá. Eu dava uma paradinha e o provocava com alguma coisa de futebol. Às vezes, também descia e sentava um pouco para uma prosa. Tinha dias que ele estava emburrado e era hora de arrancar-lhe um sorriso com alguma provocação. Como diz um bilhete de um vizinho, já está fazendo falta nos nossos dias de rua”, descreve o jornalista.
José Donizete, sem saber, deixou um importante legado: a certeza de que uma vida solidária e comunitária ainda é possível num recanto aprazível da
Praia da Costa, onde integrantes de classes sociais distintas convivem em harmonia.
Descanse em paz, Donizete.