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Indústria

Política industrial de volta ao centro do ringue no cenário nacional

Uma agenda moderna deve direcionar esforços para elevar a produtividade do país e gerar inovação, a exemplo do que vem ocorrendo em nações como Alemanha, Estados Unidos, Coreia do Sul e China.

Publicado em 03 de Julho de 2022 às 02:00

Públicado em 

03 jul 2022 às 02:00
Léo de Castro

Colunista

Léo de Castro

A Confederação Nacional da Indústria promoveu na quarta (29) e quinta-feira (30) passadas o Encontro Nacional da Indústria, o mais abrangente evento de mobilização do setor, para apresentar aos candidatos à Presidência da República propostas para o desenvolvimento do país e também ouvir as suas ideias.
Tive a oportunidade de acompanhar o evento com outras 1,8 mil lideranças industriais de todo o país.
A política industrial, felizmente, volta agora ao centro do ringue no cenário nacional, como já acontece há alguns anos em economias mais desenvolvidas. Uma política industrial moderna deve direcionar esforços para elevar a produtividade do país e gerar inovação, a exemplo do que vem ocorrendo em nações como Alemanha, Estados Unidos, Coreia do Sul e China.
Política industrial nada mais é do que um conjunto estruturado de ações públicas, para transformar positivamente a economia, promovendo a competitividade e criando incentivos para o aumento dos investimentos em setores estratégicos, gerando novas oportunidades.
Além de ouvir os candidatos, a CNI apresentou as propostas da Indústria, reunidas em 21 estudos temáticos robustos e tecnicamente bem embasados, para contribuir com o debate eleitoral. Entre os temas prioritários estão Inovação e Indústria 4.0, Economia de Baixo Carbono, Reformulação das cadeias globais de valor e integração internacional, e Educação em sintonia com o mercado de trabalho. Nada mais relevante no cenário atual.
Uma política industrial moderna e eficaz tem efeito multiplicador em todos as demais atividades, já que a indústria atua como o motor do desenvolvimento econômico como um todo. Para se ter uma noção do que isso significa, cada real produzido na indústria de transformação gera R$ 2,67 na economia, enquanto esse valor é de R$ 1,75 na agropecuária e de R$ 1,49 nos serviços.
Todos os setores são elos de uma mesma corrente: o agronegócio brasileiro é um case de sucesso internacional, e ele só foi possível graças a fertilizantes e maquinários produzidos pela indústria, que por sua vez responde por dois terços, ou 65%, do gasto empresarial em pesquisa e desenvolvimento.
Não existe economia forte sem indústria forte. Como já mencionei neste espaço, os países mais ricos são justamente os mais industrializados, o que não é coincidência, e os mais competitivos adotam uma política industrial contemporânea, como sugere a CNI.
pandemia e a guerra da Ucrânia tornaram ainda mais relevante uma política para o setor, visto que esses acontecimentos abalaram as cadeias globais de suprimentos e o próprio processo de globalização. Os países desenvolvidos têm justamente se voltado para o fortalecimento da indústria.
Brasil precisa de uma política bem estruturada para o setor, para garantir um período sustentado de crescimento, superando o ciclo de desindustrialização que tivemos da década de 80 para cá.
A indústria de transformação começou os anos 50 com participação de 20% do PIB brasileiro, aproximadamente, chegando a 36% em meados dos anos 80. A partir daí ela vem sofrendo um declínio, chegando a apenas 12,6% do PIB em 2019, segundo levantamento do IEDI (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial). Ou seja, recuamos a patamares inferiores aos dos anos 50.
Para reverter esse cenário e elaborar uma política industrial moderna a CNI propõe uma agenda com 10 propostas, para além da redução do Custo Brasil e de uma agenda de reformas estruturais como a tributária, que já foram debatidas à exaustão.
Entre as propostas da CNI estão ampliar os esforços em pesquisa, desenvolvimento e inovação, incentivando tecnologias habilitadoras da Indústria 4.0, que estão transformando os processos produtivos no mundo, como internet das coisas, computação de nuvem, realidade aumentada e inteligência artificial. Lembrando que a inovação é a principal fonte de ganho de produtividade, e os países da OCDE investem em média 2,68% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto no Brasil esse índice é de somente 1%, com iniciativas fragmentadas.
Outra proposta relevante é direcionar o poder de compra do Estado para o desenvolvimento tecnológico e a promoção da cultura de qualidade. Gastos públicos são uma fonte importante de recursos, que podem ser utilizados para estimular a incorporação de tecnologias aos produtos fornecidos ao governo brasileiro.
Precisamos também adequar o sistema educacional ao mundo do trabalho, acelerando a implantação do ensino médio profissionalizante. O trabalho em todo o mundo está sendo fortemente impactado pela crescente digitalização e automação industrial.
Por fim, como tratamos aqui de questões estratégicas para o futuro do país e os desafios são de enormes proporções, é essencial que o compromisso com uma nova política industrial seja assegurado em nível de Presidência da República.
Ela é a instância administrativa máxima, à qual caberia liderar e centralizar as discussões sobre o tema, com uma governança compartilhada com o setor privado, metas claras e transparentes, possibilitando o acompanhamento da sociedade e uma visão de política de Estado, não de governo, para uma agenda de longo prazo que atravesse mandatos eletivos. O tema é de extrema relevância, afinal, dele depende a nossa inserção na economia mundial e o nosso futuro como nação.

Léo de Castro

Empresario, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Politica Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaco, aborda economia, inovacao, infraestrutura e ambiente de negocios.

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