O carnaval e o futebol são dois grandes pilares da identidade cultural do Espírito Santo e do Brasil. São duas paixões nacionais. E eles representam muito mais do que diversão: são verdadeiras expressões da nossa diversidade, além de representarem também uma grande oportunidade de negócios, com geração de emprego e renda.
O Carnaval de Vitória é um ótimo exemplo: ele cresce a cada ano, numa festa cada vez mais bonita, rentável e concorrida. O futebol capixaba, contudo, parece não seguir ainda o mesmo ritmo.
Há 30 anos o Carnaval de Vitória era uma festa tímida e esvaziada no Centro da cidade, que não empolgava o grande público. Agora atrai multidões, com transmissão ao vivo pela TV Gazeta, ganhando espaço no noticiário nacional. O carnaval do Brasil começa aqui.
Neste ano, segundo estimativas da Prefeitura de Vitória, a festa no Sambão do Povo movimentou mais de R$ 40 milhões na cidade, gerando 6 mil empregos diretos e indiretos, consolidando-se como importante fonte de oportunidades de trabalho.
O carnaval faz a festa de foliões e também de motoristas de aplicativo, taxistas, ambulantes, costureiras, aderecistas, além do segmento de hotelaria, bares e restaurantes, beneficiados com o evento. A taxa de ocupação dos hotéis atinge a marca de 90%.
Certamente contribuiu para a evolução do carnaval de Vitória a decisão de realizar os desfiles uma semana antes do carnaval oficial, e também a mobilização de todos os setores envolvidos: as prefeituras da Capital e dos demais municípios da Grande Vitória, o governo do Estado, as escolas de samba, a Liga, as lideranças comunitárias, os veículos de comunicação, o público, empresas e sociedade em geral. O resultado dessa união é o crescimento da festa, que hoje nos enche de orgulho.
A evolução do carnaval fortalece a nossa autoestima e contribui para a construção da nossa identidade. Os enredos refletem a nossa história, cultura e tradição.
A Chegou o que Faltava, de Goiabeiras, por exemplo, saiu com o enredo "Da Lama Sai Muito Barulho", exaltando a própria comunidade, dando destaque ao manguezal da região onde a escola nasceu. A Piedade abordou o tema “Ibeji”, os orixás protetores das crianças que simbolizam o nascimento e a vida, e a Boa Vista homenageou o fotógrafo Sebastião Salgado, uma referência mundial com laços no Espírito Santo. E ganhou o título.
Hoje o Carnaval de Vitória projeta positivamente o Espírito Santo para o Brasil. Virou orgulho de todos os capixabas.
E o futebol? No futebol capixaba, contudo, não vemos a mesma evolução e harmonia. Tivemos nos últimos anos alguns avanços importantes, sem dúvida. O Rio Branco e a Desportiva se tornaram SAF – Sociedade Anônima do Futebol, um modelo de gestão em que os clubes são administrados como empresas. Isso permite aperfeiçoar a governança e a gestão financeira dos clubes e proporcionar maior capacidade de organização e desempenho.
Importante citar os exemplos do Vitória Futebol Clube e também o Porto Vitória, este último construindo uma bela história, partindo da formação da categoria de base, avançando no futebol profissional e a cada ano ganhando maior relevância. O Porto também opera no modelo empresarial de mais alto nível.
Essas mudanças nos clubes, com certeza, vão inspirar e motivar os demais a buscarem a também a evolução na gestão. Isso é fundamental, pois a alma do esporte é a competição, a busca da melhor performance. Campeonato bom é campeonato disputado, precisamos que todos evoluam.
Mas não vemos ainda a mesma mobilização coletiva, como ocorre no carnaval. Penso que todos nós, o setor produtivo e a sociedade em geral, devemos apoiar a Federação de Futebol e a Secretaria de Esportes do Estado, para avançarmos numa coordenação mais pró-ativa, que consiga aglutinar de fato o conjunto dos atores que podem contribuir para esta evolução, como ocorreu no carnaval capixaba.
Sem essa coordenação das ações necessárias, e que são coletivas, o avanço será bem difícil. Neste campo, se não estamos andando de lado, estamos avançando muito lentamente, a meu ver.
O que podemos fazer? Cobertura ampla do dia a dia dos clubes pela imprensa; profissionalização dos clubes; transmissão dos jogos; apoio das empresas capixabas através de patrocínios; definição dos horários das partidas pensando na conveniência dos torcedores que vão ao estádio; apoio do governo do Estado aos clubes que vão disputar os campeonatos nacionais; garantia da segurança nos estádios; construção de arenas com capacidade para 5 a 10 mil torcedores nas cidades do interior, essas são algumas frentes – outras podem surgir – que deveriam ser trabalhadas para recolocarmos o futebol capixaba no lugar que ele merece.
Hoje o Espírito Santo é o 21º Estado no Ranking de Federações divulgado pela CBF. Perdemos para Estados como Sergipe e Piauí. Certamente temos potencial para ir além desse desempenho.
O futebol é também um elemento formador de nossa identidade e autoestima. O antropólogo Darcy Ribeiro destacava o seu espírito democrático: “O futebol é o único reino em que o povo sente a sua pátria. É incrível, todo brasileiro, o patrão e o empregado”. O escritor Nelson Rodrigues falava em “a pátria de chuteiras” para expressar a relação entre a seleção de futebol e a identidade nacional.
Somos destaque nacional na educação, na gestão fiscal, na longevidade, na qualidade de vida e estamos evoluindo bem na segurança, na agenda da inovação e da infraestrutura. Se conseguimos ir bem em tantas áreas, colocando inclusive o carnaval de Vitoria entre os melhores do Brasil, por que não podemos fazer o mesmo com o futebol? Não podemos aceitar o fato de capixabas torcerem para times do Rio, São Paulo ou Minas Gerais. Essa é uma missão conjunta para todos nós. O futebol capixaba precisa do apoio de todos. Juntos, conseguiremos avançar.