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Empresário, vice-presidente da CNI e presidente do Copin (Conselho de Política Industrial da CNI). Foi presidente da Findes. Neste espaço, aborda economia, inovação, infraestrutura e ambiente de negócios.

Brasil precisa de diálogo e consenso sobre seus desafios

Nesse sentido, é de fato inspirador o documentário sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que deveria ser visto por nossas lideranças atuais

Publicado em 08/05/2022 às 02h00
Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso . Crédito: Ricardo Medeiros

Brasil e o mundo vivem um ciclo de incertezas, com guerra na Ucrânia, novas restrições contra a Covid na China, alteração nas cadeias globais de suprimentos, inflação e alta dos juros aqui e nos Estados Unidos. Tudo isso além de nossos desafios crônicos, como o Custo Brasil, a educação precária, o apagão de mão de obra, o desemprego.

O cenário é complexo, e para enfrentá-lo, mais do que nunca, precisamos de diálogo e consenso sobre quais são as nossas verdadeiras prioridades.

Digo isso ainda sob inspiração do excelente documentário “O Presidente Improvável”, sobre a trajetória política do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, lançado dia 31 de março passado na Globoplay. Não é uma obra política, no sentido partidário, nem pretendo aqui defender lado A ou lado B no mundo polarizado atual. Pretendo apenas ressaltar a importância do diálogo e do entendimento para construir consensos e superar as dificuldades – diálogo que deve incluir até mesmo eventuais adversários, como ocorreu no passado recente.

Na semana que passou, o Banco Central e o Fed elevaram os juros. Nos EUA, a alta foi a maior em 22 anos. No Brasil, a Selic subiu para 12,75%, patamar de 5 anos atrás. Muitos acreditavam que a era dos juros altos tinha ficado para trás. O nosso Comitê de Política Monetária indicou, porém, que novas altas são possíveis devido às incertezas sobre nosso arcabouço fiscal, além do cenário externo.

Sabemos que para controlar a inflação e reduzir os gastos públicos precisamos de reformas estruturais, e para promovê-las dependemos de um ambiente de estabilidade institucional e de muito diálogo e paciência. Com a polarização e o confronto entre os poderes, que temos assistido, esse ambiente dificilmente será alcançado.

Nesse sentido, é de fato inspirador o documentário sobre o ex-presidente, que deveria ser visto por nossas lideranças atuais. A história de Fernando Henrique se confunde com a história recente do país. Sociólogo e professor da USP, ele foi cassado aos 37 anos durante o regime militar. No exílio, no Chile, ficou sabendo da morte do pai. Veio ao Brasil para o velório. Um oficial do Exército o abordou e alertou: “O senhor tem 48 horas para deixar o país”. É um retrato daqueles tempos.

Nas eleições de 1978, pelo MDB de então, ele foi eleito como suplente de Franco Montoro no Senado. Em 1982, Montoro se elegeu governador de São Paulo e FHC tornou-se senador. Começava aí a sua carreira política, que, de forma improvável, como sugere o título do documentário, o levaria à Presidência da República em 1994.

Como ministro da Fazenda e depois presidente, Fernando Henrique conduziu o Plano Real, com a estabilização da moeda, encerrando décadas de inflação alta que corroía o poder de compra da sociedade e prejudicava justamente os mais pobres. Em sua administração, ele ainda aprovou medidas importantes como a Lei de Responsabilidade Fiscal, que obriga os gestores públicos a controlarem gastos com pessoal.

Ele consolidou e ampliou o Bolsa Família e promoveu 90 privatizações, entre elas as da Vale e da Telebras. Quando as Teles eram estatais, para adquirir um telefone, era preciso entrar numa fila e aguardar alguns anos pelos chamados “planos de expansão da Telest”. Hoje as teles nos oferecem chips de graça e o país tem mais de 240 milhões de celulares, o que seria impensável na era estatal. Imagine o leitor as resistências que o governo enfrentou para promover as privatizações, com protestos nas ruas e ações na Justiça.

Para governar, FHC aliou-se ao PFL, partido conservador que sucedeu a Arena, que por sua vez era o partido de sustentação do regime militar. E ele havia sido cassado pelo regime, que o considerava “um elemento extremista”. “Não foi fácil para mim aceitar aquela aliança. Mas era preciso, pelo país”, disse o ex-presidente.

Chamado de comunista na ditadura, passou a ser chamado de neoliberal na democracia. E manteve sempre o diálogo aberto com todas as correntes políticas, inclusive com o ex-presidente Lula, seu adversário ao longo da vida pública. Adversário, e não inimigo, é bom ressaltar. “Se você começa a polarizar muito, não há espaço para a democracia, vem o autoritarismo. Você tem um lado que sabe e o outro é o inimigo”, adverte FHC.

Quando Lula ganhou a eleição, em 2002, depois de quatro derrotas consecutivas, Fernando Henrique formou um governo de transição para facilitar a posse do novo mandatário. “Para que eu vou dificultar a vida dele? Ele ganhou a eleição! Foi a decisão do povo”, explicou, no documentário, lembrando outra lição: cada governo tem sua própria agenda, seus próprios desafios e realizações, e é preciso reconhecer os avanços de cada gestão, para que o país avance sempre.

Precisamos desse espírito público, para que os governantes se coloquem de fato a serviço do país, sem destruir ou desqualificar a obra do antecessor. No documentário, FHC conversa com personalidades como os ex-presidentes Bill Clinton, dos EUA, e Ricardo Lagos, do Chile, os sociólogos Alan Touraine e Manuell Castells e intelectuais como Maria Hermínia Tavares e Boris Fausto.

Fernando Henrique elevou nossa respeitabilidade perante seus pares globais e, ao privatizar e estabilizar a economia, mudou o mind set de uma geração que, até então, só pensava em especular com a inflação. O documentário deveria ser visto por todos os candidatos nesta eleição, porque é uma história de realizações que merecem ser valorizadas e é uma lição sobre a arte do diálogo e do entendimento. Serve como inspiração para novas alianças em favor do Brasil, para valorizar a boa política.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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