ASSINE
Doutor em Doenças Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaço quer refletir sobre saúde e qualidade de vida na pandemia.

Vacina: há luz ao fim do túnel, falta ao Brasil achar o túnel

Estamos chegando ao final de 2020, mas não ao final da pandemia. Em uma extraordinária vitória da ciência, em apenas um ano após o sequenciamento do novo coronavírus, várias vacinas foram desenvolvidas

Publicado em 14/12/2020 às 09h50
Grandes expectativas surgiram com os resultados de fase 3 das vacinas de RNA mensageiro
Grandes expectativas surgiram com os resultados de fase 3 das vacinas de RNA mensageiro. Crédito: Freepik

Estamos chegando ao final de 2020, mas não ao final da pandemia. Em uma extraordinária vitória da ciência, em apenas um ano após o sequenciamento do novo coronavírus, várias vacinas foram desenvolvidas. Não sabemos quanto tempo a proteção durará, em razão de fase 3 mais rápidas, mas esta informação não é essencial agora, com tantas mortes acontecendo!

Precisamos muito de boas notícias! Grandes expectativas surgiram com os resultados de fase 3 das vacinas de RNA mensageiro da Moderna e da Pfizer. A vacina da Pfizer é um “bom milagre” da globalização. É originária da BioNTech, uma empresa alemã criada por um casal de cientistas imigrantes turcos, Ugur Sahin e Özlem Türeci, os cérebros por trás da vacina. Ele, filho de operários, ela, filha de médico turco.

Dizem que no dia do casamento voltaram ao laboratório para trabalhar. Curioso é que o fato de serem turcos ajudou a criar aproximação com o CEO da Pfizer, o grego Albert Bourla, permitindo uma parceria de sucesso. Um cientista, o outro empresário, com enorme tino comercial. Interessante ainda é que esta vacina não recebeu um centavo de financiamento publico. É puro empreendedorismo!

As vacinas de RNA mensageiro usam moléculas com estabilidade para levar “mensagem” de produção da proteína da espícula viral e, em consequência, à formação de anticorpos contra a mesma. Mostraram 95% de eficácia, mesmo em pessoas mais idosas. Basta conhecer um pouco de biologia molecular para saber que não há nenhum risco de incorporação de material genético estranho às nossas células, nesse contexto. Há problemas de logística na vacina da Pfizer, que exige estocagem a -80 C e o Brasil ainda não fez nenhum acordo de compra dessas vacinas.

Há boas expectativas ainda das vacinas que usam vetores virais, os adenovírus. A mais importante para nós é a da Oxford/AstraZeneca, que usa um adenovírus de chimpanzé, não replicante, para carregar material genético da proteína da espícula do adenovírus. Foi até agora a única aposta do governo brasileiro através da Fiocruz. Seus estudos de fase 3 foram publicados em respeitado periódico inglês (The Lancet), com eficácia de 60-90%, mas com uma surpresa ainda inexplicada: resultados melhores foram obtidos quando a primeira dose era somente metade da dose usual e não a dose standard, o que foi observado no ramo inglês do estudo. Nesse momento pareceu prudente esperar um pouco mais de resultados dessa fase 3, o que pode retardar a aprovação da vacina da Oxford.

A vacina de adenovírus russa, a Sputinik 5, que é composta de dois adenovírus, o 5 e o 26, teve divulgada uma eficácia de 92%, sem trabalhos publicados ainda, eficácia calculada em 20 casos de doença confirmados entre vacinados e controles, o que seguramente dará um largo intervalo de confiança para estimar eficácia. Enfim, precisamos aguardar a publicação, para melhor juízo. O NIH, Instituto Nacional de Saúde dos EUA, aguarda para os próximos meses resultados de fase 3 da vacina de adenovírus da Janssen (J&J), também considerada promissora.

Não queremos cansar o leitor, mas há boas expectativas também com vacinas de subunidades proteicas como a da norte-americana Novavax, que atrasou um pouco a fase 3, mas que mostrou excepcionais resultados em fase 2. Entre as vacinas inativadas clássicas, a mais próxima do Brasil é a chinesa Sinovac, parceria com Instituto Butantan em São Paulo. O Butantan é uma instituição centenária responsável por metade de toda produção brasileira de vacinas e pela produção de vacinas de gripe todos os anos. Associou-se à Sinovac, empresa chinesa nascida em Honk Kong, também com histórico de produção de excelentes vacinas. Não faz qualquer sentido medo ou prevenção da vacina chinesa ou mesmo russa, desde que resultados sejam divulgados de modo transparente. Esperamos resultados de fase 3 da vacina do Butantan a qualquer momento.

 É bom que haja opções de diversas vacinas disponíveis, já que precisaremos de várias para atingir imunidade de rebanho. O governo americano já encomendou há mais de semanas (pré-ordens) 800 milhões de doses de vacina, de 6 empresas diferentes (AstraZeneca, Moderna, Pfizer, Janssen, Novavax e Sanofi-GSK). O presidente Trump sabe como ninguém que vacinar é fundamental para a economia americana fluir novamente. Nosso governo podia imitá-lo. O Ministério da Saúde precisa coordenar com urgência um plano nacional! Eu estou disposto a usar a primeira que for aprovada por uma agência regulatória, como FDA ou Anvisa. A Covid-19 é imprevisível e mortal. Já há luz ao fim do túnel, falta para nós brasileiros achar o túnel!

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.