Não é a primeira vez que um clube capixaba enche de esperança o torcedor que sonha em ver o futebol do Estado assumir um lugar de destaque no cenário nacional. Foi assim com a Desportiva Ferroviária que, por iniciativa da Companhia Vale do Rio Doce, foi fundada em 1963 pela fusão de seis outros clubes (entre os quais o Ferroviário e o Valeriodoce) ganhando de presente – construído pela Vale – o Estádio Engenheiro Araripe em Jardim América.
Até a privatização da Vale, ocorrida em 1997, a Desportiva teve uma trajetória exitosa disputando a série A do Campeonato Brasileiro entre 1973 a 1982, chegando a emplacar 12 partidas sem perder (8 vitórias e 4 empates) em 1979. O seu atacante Botelho chegou a receber o troféu Bola de Ouro, da revista Placar, como o melhor ponta do campeonato nacional de 1980.
Era uma época em que os estádios capixabas recebiam públicos recordes – mais de 20 mil torcedores –, não só em jogos do Campeonato Brasileiro, como também do Estadual. A rivalidade entre Desportiva e Rio Branco chegava ao auge, com suas torcidas dando um belo espetáculo nas tardes de domingo quando os dois times se enfrentavam, seja no Engenheiro Araripe, seja no Governador Bley. Mesmo com o grande prestígio que os times cariocas sempre desfrutaram no Estado, a quantidade de torcedores dos clubes capixabas se rivalizava com a da torcida do time carioca quando um deles vinha jogar no Estado.
Com o fim do patrocínio da Vale, a Desportiva Ferroviária nunca mais voltou a desfrutar o prestígio do passado. Tentou se tornar um clube-empresa em 1999 – quando passou a se chamar Desportiva Capixaba –, nas ondas da Lei Pelé, mas a experiência foi frustrante, a ponto de o Estádio Engenheiro Araripe estar até hoje sob a ameaça de ser leiloado para pagamento de dívidas. Em fevereiro último, a Desportiva anunciou a contratação da Maden – a mesma consultoria que auxiliou o Botafogo a se tornar uma sociedade anônima – para assessorá-la na sua transformação em uma SAF, Sociedade Anônima do Futebol.
Além da Desportiva, pelo menos dois outros clubes capixabas tentaram, sem obter o êxito desejado, atuar como clube-empresa. Em 2014 o Espírito Santo Futebol Clube se tornou uma S/A, subiu para a 1ª divisão do Campeonato Capixaba no ano seguinte e chegou a ser vice-campeão em 2016. Mas dois anos depois, após eliminações sucessivas na Série D do Campeonato Brasileira, se desfiliou da Federação Capixaba. O Doze Futebol Clube, fundado por empresários em 2014, também entrou em inatividade em 2019 após ter um relativo sucesso no período em que disputou a Série A do Capixabão.
Quem agora acende uma nova luz no fim do túnel do futebol capixaba é o Rio Branco, dono da maior torcida do Estado. O clube anuncia o seu propósito de aprovar uma parceria coma T2R Sports para se transformar em uma SAF que asseguraria um investimento de R$ 50 milhões em dez anos, sendo R$ 10 milhões na construção de um centro de treinamento. A empresa-parceira é formada por investidores capixabas e ficará responsável pela gestão do clube no novo modelo, desde que a assembleia geral de sócios aprove a proposta.
O negócio foi estruturado pela Matix Capital que esteve envolvida na vinda da Eagle Holdings, de John Textor, para o Botafogo, e da 777 Partners para o Vasco. O presidente do Rio Branco está entusiasmado com o objetivo do negócio que é o de “reconquistar relevância no cenário nacional, fortalecendo o futebol e o orgulho capa-preta”.
Com a SAF riobranquense – e também a da Desportiva Ferroviária –, reacende a esperança do torcedor capixaba de que realmente aconteça, em curto prazo, o renascimento da força do nosso futebol, que nem a construção do Estádio Kleber Andrade, pelo Governo do Estado, foi capaz de fazer acontecer. O desfile das escolas de samba do nosso carnaval conseguiu se destacar após muitos anos de altos e baixos, mais baixos do que altos. Quem sabe o futebol capixaba também não siga a mesma trajetória e volte a arrastar multidões aos seus palcos?