Ninguém tem dúvidas de que os eleitores votaram, nas eleições municipais, levando em conta, principalmente, os problemas da cidade. Afinal, eram eleições para escolha de prefeitos e vereadores. Mas o voto dado carrega uma forte sinalização do ambiente político atual e do que poderá ocorrer no futuro.
A começar pela acachapante derrota dos candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro nos dois maiores eleitorados do país, São Paulo e Rio de JaneiroRio de Janeiro. Em São Paulo, o candidato do presidente, Celso Russomanno ficou com um melancólico quarto lugar na eleição para prefeito com 10,3% dos votos. No Rio, a votação de Marcelo Crivella pouco ultrapassou a metade dos votos por ele obtidos em 2016.
Chama atenção também o péssimo desempenho do PT, que não venceu nas capitais do país, o que nunca havia acontecido na sua história. Em São Paulo o candidato do partido ficou com pouco mais de 8% dos votos, a metade dos obtidos por Fernando Haddad há quatro anos. No Rio, a candidata Benedita da Silva amargou a quarta colocação com 11% dos votos.
No Nordeste, considerado há pouco tempo como um grande reduto de votos petistas – por causa do bolsa-família – o PT elegeu 91 prefeitos, um número bastante inferior ao alcançado pelo PDT de Ciro Gomes, que elegeu 142 prefeitos na região, e pelo PSB, que elegeu 115. É sinal que a hegemonia da chamada esquerda política brasileira já não está mais nas mãos do partido de Lula da Silva e se bandeia cada vez mais para as mãos de Ciro Gomes e João Campos.
É por essa razão que os resultados das recentes eleições municipais estão sendo considerados como um “não” ao radicalismo, seja ele de esquerda – os “Lula livre” – ou de direita – os bolsonaristas que, ainda hoje, insistem em negar a gravidade da pandemia da Covid-19. Receberam mais votos os candidatos de partidos que se situam mais ao centro do espectro político como MDB, PP, PSD, PSDB e DEM.
A derrota dos radicais abre caminho para o aparecimento de uma terceira força na política nacional, que tanta falta fez nas últimas eleições presidenciais. Mesmo assim, é difícil antever se há alguém capaz de costurar acordos em uma teia de tantas matizes ideológicas – e fisiológicas – diferentes como as que comumente são encontradas nos partidos de centro, como podem ser considerados os cinco citados acima.
Mas seria bom e saudável para o país considerar outras opções políticas além das que estão postas pela radicalização excessiva dos que estão no poder – seduzidos por uma ideologia xenófoba e atrasada – e dos que só almejam voltar ao poder para fazer retornar a estatização desenfreada, igualmente atrasada e causadora de grande parte da estagnação econômica vivida país há tantos anos.