Sebastião Salgado, no documentário “Sal da Terra”, comenta que entrou em crise profunda após dedicar seis anos à produção da obra “Êxodos” que mostrava o drama dos refugiados em quarenta países, entre os quais o genocídio de Ruanda, na África. Disse que se sentiu descrente da humanidade. “Minha alma estava doente”, contou.
Foi nessa ocasião, 1998, que Salgado retornou ao Brasil e vislumbrou a oportunidade de reflorestar a Fazenda Bulcão, que havia pertencido aos seus pais e que estava completamente degradada pelo uso intensivo da pecuária. Nascia aí o Instituto Terra, em Aimorés, hoje uma referência de Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), responsável pelo surgimento da nova floresta com 2,3 milhões de árvores e a recuperação de centenas de nascentes na bacia do Rio Doce.
O entusiasmo de Sebastião Salgado com os rápidos resultados do Instituto Terra fez com que ele recuperasse o desejo de voltar a fotografar. Seguiram-se então, a partir de 2004, os seus oito anos de trabalho em “Gênesis”, a sua mais recente produção que retrata a natureza ainda intocada do planeta. Foi o Instituto Terra, com o renascimento da Mata Atlântica – com o esplendor da sua flora e fauna –, que inspirou Salgado a produzir “Gênesis”, uma homenagem ao planeta, um hino de amor à terra. “Essa terra é a história da minha vida”, diz Salgado.
O “Refloresta” pretende recuperar 5 mil nascentes beneficiando 2,5 mil produtores rurais e, até 2027, plantar 1 milhão de árvores de 120 espécies da Mata Atlântica. Para Salgado, esse é o “maior programa de águas do planeta”. Não sem motivo, o “Refloresta” ganhou uma homenagem de Gilberto Gil, que gravou uma música com esse nome, ele que já tinha obras com os nomes de “Refazenda” e “Refavela”.
O programa de recuperação das nascentes é também conhecido como “Olhos D’água”. As nascentes são cercadas e os proprietários rurais são treinados para protegê-las. Os resultados obtidos são fantásticos. As nascentes recuperadas comprovam que esse é o caminho para salvar o Rio Doce, exemplo que deveria ser seguido em todo o Brasil.
Quem sabe se no país que vive o luto dos 10 milhões de casos e 250 mil mortos pela Covid-19 e tristemente assiste à aglomerações clandestinas e oficiais entremeadas com o negacionismo irresponsável, que faz piadas e propaga inverdades sobre as vacinas, o exemplo do Instituto Terra venha a, tal como aconteceu com Sebastião Salgado, nos mostrar que o Brasil tem salvação, apesar de tudo.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta