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Jace Theodoro

O dia em que sobrevivi ao mar raivoso de Itapoã

Antes que o sumidouro me tragasse, lembrei do bombeiro me ensinando a lição primária: muita calma, respire, pense sem desespero

Publicado em 15 de Março de 2019 às 01:48

Públicado em 

15 mar 2019 às 01:48
Jace Theodoro

Colunista

Jace Theodoro Jace Theodoro
Crédito: Amarildo

Lá estava o mar dussekiano passando saborosamente a língua na areia. Os grãos se deleitando do abuso das ondas e eu de espectador acreditando nos tons de piscininha é quase amor. Tudo lindo, a água verde e estupidamente gelada parecia a cerveja canela de pedreiro chamando pra bebê-la com prazer. Não imaginei que aquele chamado escondia o canto da sereia convidando para as profundezas.

A intuição deu sinais: havia algo de salgado além do normal pra minha saliva hipertensa. Contrariando a dica de Iemanjá, entrei no mar. Na água translúcida, os pés podiam ser vistos alisando o fundo de areia, os peixes minúsculos passeando em volta do meu umbigo. Não me perguntem se era um cardume de pescadinhas ou de peroás porque titio aqui só tem pedigree pra distinguir os cabeças de bagre que navegam nas redes sociais.

Enquanto apreciava o cortejo marítimo, não pus reparo no vaivém das ondas, essas falsas me ninando como a mão da doida embalando o berço no filme e me levando pra zona de perigo. Beliscado pelo espinho da rosa de Iemanjá, me dei conta de que a areia estava longe, os pés não alcançavam o chão e meus pertences foram afanados pelo rato da praia (pensei na hipótese naquela altura do desespero, é mole?).

Antes que o sumidouro me tragasse, lembrei do bombeiro me ensinando a lição primária: muita calma, respire, pense sem desespero. Esta última parte não colou. Ficar sem sinais de areia pros pés não é a melhor noção de segurança que se pode ter quando o perigo te puxa a perna – e a mão de Poseidon não é fraca, nobre leitor. Sem falar naquele tridente que espanta até o capeta se lhe dão um caldo.

Sem lutar contra a maré, deixei o corpo boiar e, a cada onda a favor, eram braçadas rumo à praia. Uma, duas, lá pela décima tentativa meus pés de anjo (anjo caído a esta altura) tocaram o fundo. À onda altíssima peguei um jacaré e fui dar na areia. Estatelado, tonto, os bofes saindo pela boca, sobrevivi ao mar raivoso de Itapoã. Se repetiria a experiência? Claro que sim, desde que um iate amigo estivesse de passagem me oferecendo salva-vidas e mais ostras e champã pra curar o desespero.

Jace Theodoro

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